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Stilnox.



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Pessoas deviam poder evaporar
Quando quisessem
não deixar por aí
lembranças pedaços carcaças
Gotas de sangue caveiras esqueletos
e esses apertos no coraçao
Que não me deixam dormir.


"Olinda Wischral"
 de Paulo Leminski, 
in O ex-estranho, Iluminuras, 2001

As Cadeiras.



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pousou uma mosca aqui

À aula de
quarta-feira assistiram 13 alunos e
27 cadeiras. Em resumo: a sala cheia.
Quando a
lição terminou os 13 alunos partiram e
acto contínuo contei 20 casais de cadeiras.
Às aulas que tenho dado nunca faltam
as cadeiras
ficam a ouvir-me atentas
(as costas muito direitas).
É bom de ver que as cadeiras entendem
tudo à primeira
parecem ser mais maduras (mais
pés
assentes na terra).



João Luís Barreto Guimarães 
A Parte pelo Todo, 2009.
VIA Hospedaria Camões


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A mulher tem a química dos animais e o pólen das plantas,
e da Grande Alma rouba o Apetite para multiplicar as coisas que nascem.
Os contágios são calmos.
Se uma flor voasse perdia o cheiro;
e se o pássaro tivesse aroma de rosa, de certeza seria coxo.
Porque o mundo se organizou todo de uma vez e depois calou-se.
Ficámos nós, sós, e a Filosofia.
A pedra calada, o animal grunhe,
a erva cresce tão lenta que só a vemos quando ela é adulta,
e os cães ladram debaixo do Sol.
Todos somos resíduos imperfeitos
e os organizadores do Baile saíram logo no início,
deixando a Música, mas não os passos.
Por isso tropeçamos,
partimos a unha má e boa,
apaixonamo-nos por uma mulher e depois já é outra,
e, no Fundo, o que queríamos era sossego e não dançar.
Do que temos medo é da solidão, temos de o reconhecer,
esse caixão que vem antes do tempo,
e nos fecha dos outros e do dia.
O que queremos é sossego;
nem Mistérios nem passos de dança,
apaguem a Música.

Gonçalo M. Tavares 
Livro da Dança 
Assírio & Alvim, 2001 


* * *

É evidente que podemos explicar.
é evidente que podemos concluir.
é evidente que podemos curar.
é evidente que podemos abrir 1 consultório e dizer : PAGA!
é evidente que podemos psicanalizar.
é evidente que podemos ter componentes.
é evidente que podemos começar pelo início.
é evidente que podemos ter emoção e razão e céu em cima e terra por baixo.
é evidente que podemos comer e não dar por isso, defecar e não dar por isso,
fornicar e fecundar e não dar por isso.
é evidente que podemos Regressar.
é evidente que podemos enumerar e dar os nomes certos às coisas erradas.
é evidente que podemos acertar.
é evidente que podemos ter 1 corpo sem falhas excepto
a falha grande que é MORRER e as outras falhas pequenas que são a dor a doença
e a velhice.
é evidente que podemos fixar, explicar, concluir, exemplificar, começar, abrir 1 consultório,
curar, receber e pagar, estruturar, desenvolver, ter ideias claras e ideias claras.
é evidente que podemos pensar, dançar e depois pensar ou então o contrário.
é evidente, enfim, insisto, que podemos explicar,
mas é melhor não.
 
Gonçalo M. Tavares 
Livro da Dança 
Assírio & Alvim, 2001

Uma espuma de cinza em muitas mãos.



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Vou pôr um anúncio obsceno no diário
pedindo carne fresca pouco atlética
e nobres sentimentos de paixão.
Desejo um ser, como dizer, humano
Que por acaso me descubra a boca
e tenha como eu fendidos cascos,
bífida língua azul e insolentes
maneiras de cantar dentro de água.
Vou querer que me ame e me abandone
com igual e serena concisão
e faça do encontro relatório
ou poema que conste do sumário
nas escolas ali além das pontes.
E espero ao telefone que me digam
se sou feliz, real, ou simplesmente
uma espuma de cinza em muitas mãos.

António Franco Alexandre 
Quatro Caprichos
 Assírio & Alvim, 1999

Parece Outono em Junho, e nem Maio acabou.



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De repente, não chove
e dói-me a alma do lado esquerdo
porque sou torto, sou canhoto,
sou cada vez menos possível
e porque quando não chove passa por ti
e porque quando sou canhoto, quando sou menos,
quando tento ser possível, também passa por ti

E parece outono em junho, e nem maio acabou
é um reboliço, uma cantarolada, uma reviravolta
sem sentido dos sentidos todos surdos,
todos prontos ou prestes e sempre irritantes
a roçar por ti, sabes, pelo que tens de melhor

Então fico púdico: é quando sou ordinário
para esconder o resto por arrasto
e não sei se sei, nem sequer sei se sou
mas dou-te a mão às vezes como um soco às vezes
como um sino, não sei se soa, sei que é pouco sábio
sei que hoje ainda aqui estou e nada puxo
para não cair.

E a chuva é de gancho a chuva é lixada
a chuva há-de vir

Manuel Cintra

Breve Diagnose da Cabeça Giratória.



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Para a Lik. 

Era uma vez um pequeno inferno e um pequeno paraíso, e as pessoas andavam de um lado para outro, e encontravam-nos, a eles, ao inferno e ao paraíso, e tomavam-nos como seus, e eles eram seus de verdade. As pessoas eram pequenas, mas faziam muito ruído. E diziam: é o meu inferno, é o meu paraíso. E não devemos malquerer às mitologias assim, porque são das pessoas, e neste assunto de pessoas, amá-las é que é bom. E então a gente ama as mitologias delas. Aparte isso, o lugar era execrável. As pessoas chiavam como ratos, e pegavam nas coisas e largavam-nas, e pegavam umas nas outras e largavam-se. Diziam: boa tarde, boa noite. E agarravam-se, e iam para a cama umas com as outras, e acordavam. Às vezes, acordavam no meio da noite e agarravam-se freneticamente. Tenho medo – diziam. E depois amavam-se depressa, e lavavam-se, e diziam: boa noite, boa noite. Isto era uma parte da vida delas, e era uma das regiões (comovedoras) da sua humanidade, e o que é humano é terrível e possui uma espécie de palpitante e ambígua beleza. E então a gente ama isto, porque a gente é humana, e amar é bom, e compreender, claro, etc. E no tal lugar, de manhã, as pessoas acordavam. Bom dia, bom dia. E desatavam a correr. É o meu inferno, o meu paraíso, vai ser bom, vai ser horrível, está a crescer, faz-se homem. E a gente então comove-se, e apoia, e ama. Está mais gordo, mais magro. E o lugar começa a ser cada vez mais um lugar, com as casas de várias cores, as árvores, e as leis, e a política. Porque é preciso mudar o inferno, cheira mal, cortaram a água, as pessoas ganham pouco – e que fizeram da dignidade humana? As reivindicações são legítimas. Não queremos este inferno. Dêem-nos um pequeno paraíso humano. Bom dia, como está? Mal, obrigado. (...)E então a gente ama, porque isto é a verdadeira vida, palpita bestialmente ali, isto é que é a realidade, e todos juntos, e abaixo a exploração do homem pelo homem. E era intolerável.(...)
E as ruas são tão tristes. Precisam de mais luz. Mas nesta, por exemplo, já puseram mais luz, e mesmo assim é triste. É até mais triste que as outras. Estou tão triste. Vamos para férias, para o pequeno paraíso. Contaram-me que ele tinha uma alegria tão grande que não podia aguentar um copo na mão: quebrava-o com a força dos dedos, com a grande força da sua alegria. Era uma criatura excepcional. Depois foi-se embora, e até já desconfiavam dele, e embarcou, e talvez não houvesse lugar na terra para ele. E onde está? Mas era uma alegria bárbara, uma vocação terrível. Partiu. E agora chove, e vamos para casa, e tomamos chá, e comemos aqueles bolos de que tu gostas tanto. E depois? Ele era belo e tremendo, com aquela sua alegria, e não tinha medo, e só a vibração interior da sua alegria fazia com que os copos se quebrassem entre os dedos. Foi-se embora.
 
Herberto Helder 
Os Passos Em Volta 
Editora Estampa, 1963

"Perguntas."



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Os ladrões vivem nas águas furtadas?
O peito do pé usa soutien?
Em que carpintaria funciona a Serra da Estrela?
Quando se come um prego, fica-se com ferrugem na barriga?
Em que mês aparecem andorinhas no céu da boca?
O Sumo Pontífice é feito de que sumo?
Em que guerra foi usado o peixe espada? 
Luísa Ducla Soares

Futurologia.



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Quadrilha 

João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém. João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento, Raimundo morreu de desastre, Maria ficou p'ra tia, Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes que não tinha entrado na história.  
Carlos Drummond de Andrade

Bom Dia, Mundo.



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 Bom dia, mundo.
Alegra-me ver-te cá fora, ao despertar.
Ainda bem que não aproveitaste
- a ocasião pintam-na calva –
o manto da noite maldita
para te ires para sempre até ao submundo.
Reconforta-me também
que te habitem ainda pássaros cantores
‘meistersinger’ do bosque no jardim;
que o sol severo nos escalde ainda
e nos torture o rude ozono
- como todos os dias.


Sonhei que tinhas partido,
comigo, para o inferno
e que tinham ficado aqui
sem mundo as demais criaturas:
pedras, gralhas, insectos ou pessoas.
Vejo-te tão grande e tão belo,
que me rio dos sinistros solipsistas
de antanho.
Não hás-de esfumar-te quando eu me extinguir.
Canto a tua saúde de ferro,
teu verde coração e tua estrutura
de granito.
Bom dia, meu querido, mundo lindo.

Eduardo Lizalde
Aqui.

HOJE.



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Convém sempre relembrar que:

Tranquilamente Hablando.



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Às vezes invento que estou enamorado e é doce, e é estranho, embora, visto de fora, seja estúpido e absurdo. As canções da moda parecem-me bonitas e sinto-me tão só que bebo noite fora mais do que é costume. Apaixonei-me pela Adélia, e pela Marta, e, alternadamente, por Susanita e Carmen, e, alternadamente, sou feliz e choro. Não sou muito inteligente, como se vê, mas agrada-me saber-me um entre tantos e, em ser vulgarzinho, encontro um certo descanso.

Gabriel Celaya 
Tranquilamente Hablando, 1947

CENAS CURTIDAS PRÓ DIA MUNDIAL DA POESIA 2010.



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Domingo que vem, 21 de Março, o céu apresentar-se-á, provavelmente, nublado com possibilidade de ocorrência de aguaceiros e há-de haver no entanto miúdos teimosos ciosos de plantar arvorezinhas. Além disto, dar-se-á lugar a mais uma Celebração da Palavra. Ya, o Dia Mundial da Poesia babes. Como tal, haverá uma data de gente - o equivalente a, sei lá, 2.5% da população - a querer, de entre outras actividades, carochar à beira-rio, rebolar-se na relva, descambar de patins ou, quiçá, procriar entre os arbustos, enquanto umas colunas de som enormes, devidamente fixadas pelas autarquias aos postes das cidades, bufam declamações de poemas infindáveis acerca de cabelos e pólen.
 
Se quiserem começar a festejar a cena já amanhã, dia 20 de Março, o 1º número da Revista Ítaca é lançado na Livraria Trama, um espaço lá para o lado do Largo do Rato que, aparte a inexistência de ar condicionado, não deixa de ser bastante aprazível e recomendável. Apresentação a cargo de Fernando Pinto do Amaral. Se estiverem pelo Porto, a Maria Vai Com As Outras comemora a cena às 23h com "uma reunião à volta das palavras". Se não é uma sopa de letras, deve ser o jogo do stop, se não é o jogo do stop é claramente Scrabble. Com Pedro Sena-Lino.
 
No próprio dia 21 de Março, uma série de paróquias adere também à celebração dominical. O CCB tem uma programação especialíssima Dia Mundial da Poesia, durante 8 horas non-stop (das 11h às 19h), com entrada totalmente livre. Não sei se há croquetes mas podem consultar o programa completo aqui ou aqui. Poetas há, filmes há, música há. Ainda por cima aquilo fica ali mesmo juntinho do rio, dos repuxos e da relva que, está-se mesmo a ver, vai estar molhada. E a culpa é toda vossa que durante anos a fio, de manhã, quando iam para a escola, atiraram o plástico do Bollycao para o chão. Feito muito pouco poético, diga-se de passagem.
 
A Fnac associa-se à Editora Assírio & Alvim para o lançamento de "Resumo", uma reunião exclusiva dos melhores poemas publicados em Portugal no ano de 2009 com selecção de José Tolentino Mendonça, de José Alberto Oliveira, de Luís Miguel Queirós e do grandessíssimo Manuel de Freitas. Como é evidente, a rapaziada e gajedo da Revista Criatura foram metidos ao barulho. Não, por acaso acho que foi só mesmo a rapaziada. A sopa rica está já à venda na Fnac por 4€. Faz-se ainda a promessa de cumprir anualmente a iniciativa, daqui por diante. Se Deus quiser. 
 
Já a Bertrand vai estar a oferecer, na compra de um livro de poesia, outro livro de poesia. Depois é só escolherem um dos Melhores Sítios Para Ler Fora De Casa e abancar, ou então, se não quiserem comprar nenhum dos dois, deixo-vos - sem querer parecer a Paula Moura Pinheiro - um link absolutamente imperdível que vos ensinará, passo-a-passo, Como Roubar Cinco Volumes das Obras Completas de Jorge Luís Borges em Portugal. Um conselho: batina de padre já não cola. E isto sem querer falar de pedofilia.
 
Consta que a minha colega de casa faz anos e, depois da tertúlia absolutamente edificante que manteve com as berrantes convidadas acerca de Diário de Anne Frank, prepara-se para cantar, em tom de autocomiseração e esperando acompanhamento (tanto vocal como psicológico), aquele tema - "Rugas". Acha ainda que vai mudar de calças.

O Pé, o Tejo.



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Cais do Gás (Cais do Sodré).

Digo Que Não Sou Um Homem Puro.



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Digo que não sou um homem puro
Não vou dizer-te que sou um homem puro.
Entre outras coisas
resta saber se o puro de facto existe.
Ou se é, digamos, necessário.
Ou possível.
Ou se tem bom gosto .
Acaso já provaste a água quimicamente pura,
a água de laboratório,
sem um grão de terra ou de esterco,
sem o pequeno excremento de um pássaro,
a água feita apenas de oxigênio e hidrogênio?
Puá! que porcaria.
Não te digo, pois, que sou um homem puro,
não te digo isso, mas bem o contrário.
Que amo (as mulheres, naturalmente,
pois meu amor pode dizer seu nome),
e gosto de comer carne de porco com batatas,
e grão-de-bico e chouriço, e
ovos, frango, carneiro, peru,
peixe e mariscos,
e bebo rum e cerveja e aguardente e vinho,
e fornico (inclusive com o estômago cheio).
Sou impuro, o que queres que te diga?
Completamente impuro.
No entanto,
creio que há muitas coisas puras no mundo
que não são mais que pura merda.
Por exemplo, a pureza da virgindade nonagenária.
A pureza dos noivos que se masturbam
em vez de se deitarem juntos numa pousada.
A pureza dos internatos, onde
abre suas flores de sémen provisional
a fauna pederasta.
A pureza dos clérigos.
A pureza dos académicos.
A pureza dos gramáticos.
A pureza dos que asseguram
que devemos ser puros, puros, puros.
A pureza dos que nunca tiveram blenorragia.
A pureza da mulher que nunca lambeu uma glande.
A pureza do homem que nunca sugou um clitóris.
A pureza daquela que nunca pariu.
A pureza daquele que nunca procriou.
A pureza daquele que se dá golpes no peito, e
diz santo, santo, santo,
quando é um diabo, diabo, diabo.
Enfim, a pureza
de quem não chegou a ser suficientemente impuro
para saber o que é a pureza.

Nicolás Guillén 
Antologia Poética 
Campo das Letras, 1995

VII. SE ME VIRES POR AÍ.



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VII. 
Para passar o tempo, Platão decidiu divertir-se à custa da sensibilidade de certos poetas. Pois bem, o que fez Platão? Inventou o amor platónico. Depois, aborrecido com a sua própria invenção, saiu de casa e foi às putas. 

1. Caravana - Rui Manuel Amaral, Angelus Novus 
2. Se Por Acaso Me Vires Por Aí - J.P. Simões com Luana Cozetti

VI. OSMOSIS.



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VI.

Tu andas muito preocupada
com tudo. E o teu mundo encolhe,
reduz-te ao brilho, alarga-te no corpo
e, assim, o corpo não dança,
dramatiza os passos e a escura
roupa. Sabe, quem te conhece,
que os gestos medidos têm ânsias
de horizontes, os olhos tristes
se abrem de explosão e infinito,
as mãos em que sempre te despenhas
desenham paisagens inteiras, lugares
secretos entre a areia e o sol, cabos
seguros de amarração em cais interditos
ao vulgar e ao soez, à lisonja fácil,
à pequena traição que te confunde
a serenidade com a angústia.
Tantas vezes apetece aconselhar-te! -
não espreites o futuro pela nesga
entreaberta, coragem frágil
em que desenhas o porte delicado,
a mansa, exaltada razão
dos argumentos , a loucura determinada,
escondida entre passado e presente,
imediatamente ages, agora
correm-te as lágrimas
e sabes muito bem porquê: chorar
faz bem, os teus fantasmas são carinhosos,
o que há-de ser é que não sabes,
bem sabes que o primeiro cigarro te mata
e ao segundo
já quase decidiste exactamente
o que fazer.
Mas não é esta canção
uma de conselhos. Atrevida canção
se fosse o que os teus lábios
não pronunciam, beijo reflectido
nos espelhos para onde te desorganizas.
O teu currículo de espelhos!
Sabe quem te conhece que és só
tu se amas; quando hesitas
onde não há razão para duvidar,
atenta de minúcias e segredos
entre as tintas e as paredes da casa,
da grande casa universal
que percorres, ora em bicos de pés
ora assente e sólida nos saltos
que te fazem mais alta;
quando te sentas e lês com compostura,
ávida de saber o que queres
esquecer na primeira fonte fresca,
no primeiro avião para bem longe,
no trilho meio selvagem da serra
da tua estimação e logo se entende
a respiração ofegante, as horas
que levas a escolher os sapatos,
logo se entende o medo aparente
de que a matéria seja imprópria
para tão sólida construção de alma.
Tu andas muito preocupada,
com nada. Com tudo o que do universo
significa ser improvável a felicidade. 



 


1. Quem Não Puder Falar Que Se Cale - Manuel Fernando Gonçalves 
2. Provavelmente Deus.

V. BLUES DA MORTE DE AMOR.



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V.

Já ninguém morre de amor, eu uma vez
andei lá perto, estive mesmo quase,
era um tempo de humores bem sacudidos,
depressões sincopadas, bem graves, minha querida.
mas afinal não morri, como se vê, ah não
passava o tempo a ouvir deus e música de jazz,
emagreci bastante, mas safei-me à justa, oh yes,
ah, sim, pela noite dentro, minha querida.

a gente sopra e não atina, há um aperto
no coração, uma tensão no clarinete e
tão desgraçado o que senti, mas realmente,
mas realmente eu nunca tive jeito, ah não,
eu nunca tive queda para kamikaze,
é tudo uma questão de swing, de swing minha querida,
saber sair a tempo, saber sair, é claro, mas saber,
e eu não me arrependi, minha querida, ah, não, ah, sim.

há ritmos na rua que vêm de casa em casa,
ao acender das luzes. uma aqui, outra ali.
mas pode ser que o vendaval um qualquer dia venha
no lusco-fusco da canção parar à minha casa,
o que eu nunca pedi, ah, não, manda calar a gente,
minha querida, toda a gente do bairro,
e então murmurarei, a ver fugir a escala
do clarinete:- morrer ou não morrer, darling, ah, sim. 

   


1. Blues da Morte de Amor - Vasco Graça Moura 
2. Sonhos Pop - Pop Dell'Arte

III. It's Hard To Get Old Without A Cause.



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Nascemos (é um azar comum),
envelhecemos mal,
temos dúvidas e dívidas sobre as quais ninguém 
- mesmo que se lhe chame Deus - responde.
 Manuel de Freitas
 
III. 
Forever Young - Youth Group. 
Forever young, ..I want to be forever young
 Do you really want to live forever, ..forever, forever?
 


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OS VOYEURS.