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O sentimento de um ocidental.



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E, enorme, nesta massa irregular
De prédios sepulcrais, com dimensões de montes,
A Dor humana busca os amplos horizontes,
E tem marés de fel como um sinistro mar!


do poema "Horas Mortas"
Cesário Verde 



Lunchtime Atop a Skyscraper, 1932, Charles C. Ebbets

O osso da pila



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O osso da pila*
para o eduardo pires

pensávamos que se partíssemos o
osso da pila morríamos num instante sem
mais crescer, sem casar

pensávamos que o osso da pila era
o mais impressionante e que talvez fosse
articulado e que seria fundamental para crescer e para casar

pensávamos que faríamos filhos à
custa do osso da pila e que não os faríamos se
o partíssemos nem cresceríamos e nem poderíamos casar

pensávamos que casaríamos um dia, aterrorizados por
uma infância ansiosa, com as mãos no osso da pila para
o proteger, razão também pela qual achávamos ter podido
crescer e casar

pensávamos que o osso da pila justificava crescer e casar

não casámos, não partimos o osso da pila, crescemos,
devíamos ter morrido na infância, num instante




Valter Hugo Mãe
o inimigo cá dentro 
Volume contabilidade, Poesia 1996-2010 
Alfaguara, 2010

Cesário - desejo de sofrer



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Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer


Cesário Verde

Fire, walk with me.



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Em caso de fogo, a primeira coisa que se deve fazer é perder a cabeça. O pior inimigo do fogo é a cabeça. Começa-se por querer sair dali a qualquer preço, não olhar a nada, esquecer tudo, desaparecer, mesmo que seja para o interior de si próprio, onde por sinal há muito mais fogos do que no litoral.

Cento e trinta e cinco por cento das vítimas do fogo são homens. O restante são mulheres e crianças e nenhuma delas abandonou a cabeça. Embora nenhuma vítima tenha sequer tido tempo para pensar que poderia estar noutro local, como no interior ou no litoral de si próprio, todas foram encontradas agarradas às coisas mais incontroláveis, como uma beata, uma bóia ou uma recordação.

António Pocinho 
Os pés frios dentro da cabeça
 Fenda, 1999

Mercado Velho.



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Hoje vou para o mercado velho expor o meu corpo em pedaços
cada um bem identificado por uma etiqueta com nome e valor
tenho esperança de realizar uma boa transacção há tanta coisa lá
para trocar pelos pedaços ainda em bom estado deste meu corpo
inteiro não tem muita utilidade mas assim a retalho é precioso
em particular a mão direita o crânio o sexo o coração
oxalá ninguém queira comprar por atacado todos os pedaços
é que não sei onde guardei as instruções de montagem.


Carlos Alberto Machado
Talismã
 Assírio & Alvim, Lisboa, 2004
 


O meu all time favorite (até à data), aqui numa versão "audiovisionada", aliás, várias versões, que lhe fazem todo o jus.



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Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura

Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio

Afinal o que importa não é ser novo e galante
- ele há tanta maneira de compor uma estante!

Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício

Não é verdade, rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola

Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come

Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!

Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora - ah, lá fora! - rir de tudo

No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra



Mário Cesariny
1923-2006


Nobilíssima Visão
Mário Cesariny
Assírio & Alvim

Primeiro quarto em Lisboa.



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Primeiro quarto em Lisboa

onde vivi oito meses: da janela
sobre o beco via o tráfego nocturno
entre muros com recados e desenhos
obscenos, sob o castigo da música
de um bar entretanto extinto.
O lugar era assombrado

pelo cheiro da doença
(...* grave supressão de minha
autoria e vontade *...)
no meu último dia
deu-me um livro do Eugénio
que mantinha à cabeceira, esquecido
por outro hóspede "dado às letras"
como eu. Penso muitas vezes nele
e naqueles que lá moravam

em plenos anos noventa, gente
que eu só encontrava a desoras,
na cozinha, à volta do frigorífico
de serventia comum. Era no tempo
dos versos que levavam a outras
praças — chegava tarde do Bairro,
o torpor entre as paredes

incitava à procura das palavras
de um poema que me ajudasse
a mudar. E quando me lembro disso
penso no muito que quis encontrar
uma saída, e nas portas que fechei
e nas esperanças que traí desde então
na minha vida.


Rui Pires Cabral
in Oráculos de Cabeceira,
Averno

Van Gogh, Pina, Gatos, Mondrian.



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Há muitos gatos pela casa do poeta. Como também os há na poesia de Manuel António Pina. Poemas que são como gatos: insinuantes e discretos mas simultaneamente, aos poucos, ocupantes quase invisíveis de um território cada vez mais vasto. Em cada gato há outro gato, escreve. Tal como em cada poema há outro poema, sugere o poeta. Em mais de trinta anos de actividade literária, Manuel António Pina tem-se desdobrado entre a poesia e a literatura infantil. Uma e a mesma coisa, assegura o poeta com aquele seu sorriso sempre na fronteira entre a candura e a ironia. Com ele e com as palavras está-se em boa companhia.
 A introduzir uma entrevista de 2006 à Revista LER, dirigida por  Carlos Vaz Marques. Para ler na íntegra aqui.



Van Gogh Mondrian
Uma vez um anjo apaixonou-se por van gogh e veio vê-lo
van gogh pintou-o naquela cadeira, te acuerdas federico bajo la tierra?
o anjo depois foi-se embora e van gogh ficou com o tabaco estragado

mondrian também tinha um anjo mas o dele era mau
não se importava com coisa nenhuma batia-lhe nos olhos
Manuel António Pina, in "Poesia Reunida", 2001

II. Democracia.



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Sou um democrata até ao ponto de amar o sol livre nos homens
e um aristocrata até ao ponto de odiar as pessoas néscias e possessivas.

Amo o sol em qualquer homem
quando o vejo na sua fronte
límpido e sem temor, mesmo que seja pequeno.

Mas quando vejo aqueles homens cinzentos e bem sucedidos
tão hediondos e semelhantes a cadáveres, totalmente sem sol,
como escravos gordos e bem sucedidos, meneando-se mecanicamente,
então sou mais que radical e quero servir-me da guilhotina.

E quando vejo os homens que trabalham
pálidos e miseráveis como insectos, apressados
e vivendo como piolhos, com pouco dinheiro
e sem nunca prosperar,
então desejo, como Tibério, que a multidão tivesse apenas uma cabeça
para que eu a pudesse decepar.

Sinto que as pessoas para quem o sol não existe
não deviam viver.

D.H. Lawrence
Tradução de Maria de Lourdes Guimarães
in Os animais evangélicos e outros poemas, Relógio D'Água
Via O Melhor Amigo

I. Poética.



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Todos temos um amigo morto
e um amor que se foi, ao amanhecer,
e nos deixou a luz feita em pedaços.

Um pai e uma mãe que se esgotam,
uma foto em Lisboa, um cão tonto,
dois ou três livros, quatro ou cinco quadros.

Todos temos uma rua escura,
uma avenida que nos reconhece,
uma árvore velha e um antigo pátio.

E a certeza de que tanto é nada,
a desgraça de ser o que perdemos,
a sorte de viver para contá-lo.


Ángel Mendoza
Tradução de Inês Dias
in Cercanías, 2002
Via O Melhor Amigo

Viver sempre também cansa.



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Viver sempre também cansa.

O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinzento, negro, quase-verde...
Mas nunca tem a cor inesperada.

O mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.

As paisagens também não se transformam.
Não cai neve vermelha,
não há flores que voem,
a lua não tem olhos
e ninguém vai pintar olhos à lua.

Tudo é igual, mecânico e exacto.

Ainda por cima os homens são homens.
Soluçam, bebem, riem e digerem
sem imaginação.

E há bairros miseráveis sempre os mesmos,
discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe,
automóveis de corrida...

E obrigam-me a viver até à Morte!

Pois não era mais humano
morrer um bocadinho,
de vez em quando,
e recomeçar depois,
achando tudo mais novo?

Ah! se eu pudesse suicidar-me por seis meses,
morrer em cima dum divã
com a cabeça sobre uma almofada,
confiante e sereno por saber
que tu velavas, meu amor do Norte.

Quando viessem perguntar por mim,
havias de dizer com teu sorriso
onde arde um coração em melodia:
"Matou-se esta manhã.
Agora não o vou ressuscitar
por uma bagatela."

E virias depois, suavemente,
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
a Morte ainda menina no meu colo...


José Gomes Ferreira,
in "A Poesia da «Presença»"
Cotovia, 2003

VIA O Café Dos Loucos

#1



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( Com as devidas supressões. )


Para o Diogo
A juventude - Diogo - é um tom necessário na textura da almofada que mostra-se, muitas vezes, em vincos dolorosos. Ter 20 e picos anos é garantir a fortuna da boa disposição e ter acessos de cólera (...). É a raiva de não encontrar vida nas palavras de um livro, quando se tem a tua idade. Pouco tempo depois, ficamos mais velhos, por várias razões, e o segredo parece ser não viver. Mas como é possível estar morto antes do tempo? Como é possível não sermos contemplados com a ausência de alguém? Não vivendo? Talvez. E se formos o morto fingido que nunca reage às queimaduras do fogão? As cicatrizes permanecem. Até nos mortos que fingem andar por aí. Pequenas coisas: tens pouco tempo para uma vida gloriosa. Aproveita estas folhas que ainda estão nas árvores mas não descanses neste Verão, nem no outro. Vive, enquanto não és um morto vivo a ler a vida em páginas desta biblioteca itinerante chamada poesia.

Impossível a má notícia.



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340


Fui dar com ela no quarto a chorar, o telemóvel
Atirado para um canto. Entre lágrimas, foi dizendo
(E tem doze anos) que o seu amigo decidira que deviam
Esperar. A mensagem: «Só o amor verdadeiro está
Por vir». É ténue a diferença (pensei) entre um galã
E um filósofo. Mas ela, sobretudo, descobrira que os
Novos instrumentos «mordem» tanto como os antigos,
Salvo que muito mais depressa. A mentira vende. Para
A publicidade, na nova comunicação é impossível a má
Notícia. Por que não trocam com os jornais?


Maria Gabriela Llansol
O Começo De Um Livro É Precioso
Assírio & Alvim
2003

Two Lovers.



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"Já não morremos hoje, nem casamos amanhã"
Dito Popular


I. / II.
 

Usámos a dois: estações do ano, livros e uma música.
As chaves, as taças de chá, o cesto do pão, lençóis de linho e uma cama.
Um enxoval de palavras, de gestos, trazidos, utilizados, gastos.
Cumprimos o regulamento de um prédio. Dissémos. Fizémos. E estendemos sempre a mão.

Apaixonei-me por Invernos, por um septeto vienense e por Verões.
Por mapas, por um ninho de montanha, uma praia e uma cama.
Ritualizei datas, declarei promessas irrevogáveis,
idolatrei o indefinido e senti devoção perante um nada,

(- o jornal dobrado, a cinza fria, o papel com um apontamento)
sem temores religiosos, pois a igreja era esta cama.

De olhar o mar nasceu a minha pintura inesgotável.
Da varanda podia saudar os povos, os meus vizinhos.
Ao fogo da lareira, em segurança, o meu cabelo tinha a sua cor mais intensa.
A campainha da porta era o alarme da minha alegria.

Não te perdi a ti,
perdi o mundo.
Ingeborg Bachmann
O Tempo Aprazado 








II. / I.
Saímos do amor
como dum desastre aéreo
Tínhamos perdido a roupa
os documentos
a mim faltava-me um dente
e a ti a noção do tempo
Era um ano longo como um século
ou um século curto como um dia?
Por cima dos móveis
pela casa
só despojos quebrados:
copos retratos livros desfeitos
Éramos sobreviventes
duma derrocada
dum vulcão
de correntes enfurecidas
e despedimo-nos com a vaga sensação
de termos sobrevivido
mas não sabíamos para quê.
Cristina Peri Rossi

Mais de um milhão de cadáveres (segundo as últimas estatísticas.)



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Insónia.

Madrid é uma cidade de mais de um milhão de cadáveres
(segundo as últimas estatísticas).
De noite às vezes eu reviro-me e entro
neste nicho em que apodreço há 45 anos,
passando longas horas a ouvir gemer o furacão, ou ladrar os cães,
ou correr brandamente a luz do luar.
E longas horas passo gemendo como o furacão,
ladrando como um cão enfurecido,
correndo como o leite do ubre quente duma grande vaca amarela.
E passo longas horas interrogando Deus,
perguntando por quê minha alma apodrece lentamente,
por quê apodrece mais de um milhão de cadáveres nesta cidade
de Madrid,
por quê no mundo apodrecem lentamente mil milhões de cadáveres.
Diz-me, que horto queres adubar com a nossa podridão?
Temes que se te sequem os grandes roseirais do dia,
as tristes açucenas letais das tuas noites?


Dámaso Alonso
Tradução A.M.

Pareces um Deus aí sentado.



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Não tiveram grandes dificuldades
para ensinar o macaco a escrever poemas:
primeiro prenderam-no à cadeira,
depois amarram-lhe à mão o lápis
(o papel já tinha sido pregado à mesa).
Então o Dr. Bluespire inclinou-se no ombro dele
e sussurrou-lhe ao ouvido:
Pareces um deus aí sentado.
Porque não experimentas escrever alguma coisa?


James Tate
(tradução de Ricardo Marques)
VIA Desejo Sinceramente

Tenho a amizade dos gatos e dos pobres.



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Eu sou a inércia criminosa e o exílio dos cães
tenho a amizade dos gatos e dos pobres
todas as minhas esposas me foram infiéis
soçobraram numa insacável loucura
das imagens e não das almas
eles dizem que estou doido
mas o que estou é sozinho
um pouco triste
escutai-me
vou contar-vos tudo...
eu tinha-lhe dado uma cabra...
não
não estou doido
se me deres um cigarro eu continuo a história...
 
Tahar Ben Jelloun
in Arzila, Estação de Espuma
1987

Abstenham-se as ressentidas.



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Procura-se musa. Abster-se fracas
ressentidas travestis e invejosas.
Salário baixo
noites de amor intenso
e livros como filhos. 

Cristina Peri Rossi



Via O Melhor Amigo: Via Rua das Pretas : Via Neorrabioso

Lamento e exortação.



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Que chegámos demasiado tarde ao leito
da vida para qualquer sonho de emancipação
revolucionária, percebemo-lo aos vinte anos;
que justiça é uma palavra em esperanto
e a lei o mero eixo onde gira o privilégio,
percebemo-lo depois, muito a contragosto.

Resta-nos perder a última ilusão: a de que
haja ainda espaço, nesta feira popular
da mediocracia, para uma escrita que não
seja celebração do estúpido, estridente
Carrossel do embuste, da Grande Roda
que nos entontece de riso (em voltinhas
de onde a alma sai torcida e sem emprego),
do Túnel de Horrores Publicitários, da Barraca
de Tiro em que fazemos de patos; espaço,
enfim, para que dois dedos de beleza se
entrelacem, ou dois dedais de inteligência
se toquem num brinde ao farrapo da verdade.

Quando percebermos também isto, amigos,
saberemos que a Gloriosa Era da Literatura
Ocidental chegou ao fim, derretida (como
aliás sugere o seu acrónimo) pelo aquecimento
da emoção global; que não viemos aqui
para tentar ressuscitar um moribundo
(como crêem os mais optimistas), mas sim
para animar um velório. Carpideiras somos,
de violino ao ombro. O funeral está na rua.
Se queremos brilhar ainda um pouco,
é agora ou nunca. Afinemos as cordas,
as lágrimas, em dó maior. Vamos a isto?
 José Miguel Silva
 
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OS VOYEURS.