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Primeiro quarto em Lisboa.



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Primeiro quarto em Lisboa

onde vivi oito meses: da janela
sobre o beco via o tráfego nocturno
entre muros com recados e desenhos
obscenos, sob o castigo da música
de um bar entretanto extinto.
O lugar era assombrado

pelo cheiro da doença
(...* grave supressão de minha
autoria e vontade *...)
no meu último dia
deu-me um livro do Eugénio
que mantinha à cabeceira, esquecido
por outro hóspede "dado às letras"
como eu. Penso muitas vezes nele
e naqueles que lá moravam

em plenos anos noventa, gente
que eu só encontrava a desoras,
na cozinha, à volta do frigorífico
de serventia comum. Era no tempo
dos versos que levavam a outras
praças — chegava tarde do Bairro,
o torpor entre as paredes

incitava à procura das palavras
de um poema que me ajudasse
a mudar. E quando me lembro disso
penso no muito que quis encontrar
uma saída, e nas portas que fechei
e nas esperanças que traí desde então
na minha vida.


Rui Pires Cabral
in Oráculos de Cabeceira,
Averno

Santa Apolónia da Minha Escuridão.



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Senhores Passageiros

Alguns rapazes avançam mais depressa
para a morte, mas todos se debatem
com a vida que lhes resta. Às voltas
no cimento das cidades, entre
a estrangulada circulação dos veículos,
segredam ao ouvido de um deus
surdo: concede-me um novo amor
igual ao dos meus irmãos. Entretanto
são mais as raparigas que não lêem livros
no venenoso relento das estações
ferroviárias, chupam rebuçados
de menta com fel, suavemente inclinam
a cabeça para ouvir: senhores passageiros
vai dar início à sua marcha o comboio
com destino a Santa Apolónia da escuridão.

Rui Pires Cabral 
Longe da Aldeia 
Averno, 2005

Tinha de ser.



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Quebra no sabatismo recém-anunciado para um pequeno parêntese, a anunciar isto, que tinha de ser e muito agrado me traz, embora não mais que o simples, prévio e, portanto, garantido existir do objecto causal.
Passo a explicar: "As Têmporas da Cinza" de A. M. Pires Cabral, 2008, Edições Cotovia, arrecada o prémio Luís Miguel Nava 2009.
 Aos desinteressados, perdoem-me a importunância. E agora sim, me retiro.

Tu que nos deste a Primavera e o sarampo.



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Tu que nos deste a primavera
e o sarampo,
as manobras fáceis da procriação
e a denodada repulsa pela morte,

leva um pouco mais longe a generosidade
e dá-nos agora a indiferença:
longa, fria, auspiciosa.

Como a que deste às pedras.
E - segundo parece -
como a que reservaste para ti.

Dá-nos esse gelo, essa tão
dura carapaça. Para que passem
carroças sobre nós - e nós a assobiar.

A. M. Pires Cabral

PROGNÓSTICO



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Sou do tempo em que não se corrigiam dentes defeituosos.
Além disso, perdi praticamente todos os molares.
Para piorar as coisas, a TAC acusa um desvio para a esquerda do septo nasal.
Ainda por cima, um desvio acentuado.
Bonita caveira hei-de dar, não haja dúvida. 
A.M. Pires Cabral 
As Têmporas da Cinza 
Edições Cotovia, 2008

OS VOYEURS.