Deixem-me dormir, se faz favor.



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- Ben Clark: Não é este o paraíso prometido
E, não obstante, quem se apercebeu disso?
- Charles Bukowski: The problem with the world is that the intelligent people are full of doubts while the stupid ones are full of confidence.
- António Ramos Pereira:
Não me trancaram em nenhum sótão tendo eu treze anos, fui eu quem trancou o mundo no exíguo espaço que resta fora desta divisão

REGRAS DA CASA.



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Nunca omitir os infortúnios
e contar cada história até
ao fim. Tapar com panos
os espelhos; facas debaixo
da mesa. Consolar a coruja e
trinchar o morcego.
Nunca perder a raiva, aconteça
o que acontecer. Deixar entrar
quem quer que seja.

Hans-Ulrich Treichel
"Como se fosse a minha vida"
Quetzal editores
1994


Comunicado à Nação.



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* Sim, e é sempre por estas quadras.
(do irmão)

Pessoas #2



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Às vezes as pessoas
salvam-nos de outras pessoas
resgatam-nos do fedor da sua carne putrefacta
arrancam-nos aos braços do rancor
recordam-nos por que estamos neste mundo
emprestam-nos o coração sem juros a fundo perdido
erguem-nos do chão ou descem-nos de novo à terra
e seu calor protege-nos dos gelos
que nos aparecem em casa se estamos sós.

São pessoas apenas e parecidas
com as outras pessoas, estão aí
são a solução do mundo.


Lucas Rodríguez

Pessoas #1



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As pessoas são cada vez mais e muito jovens
e não é justo exigir-lhes o impossível.

Por isso reafirmo-me, comprometo-me,
cuido-me e procuro não morrer.

More Die Of Heartbreak



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More Die Of Heartbreak 

Morrem mais de mágoa do que por radiações nucleares,
mas cá nos entretemos nós com activismos piolhosos,
enquanto isso, em muitos lares, escrever nos vidros
continua a ser a única separação entre a vida e a morte,
carta que salva uma mão de ferir outra ou de se perder
neste mal-estar perante as luzes ou uma fotografia antiga.

António Ramos Pereira
(excerto)

O Peso da Sombra.



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Inventarei o dia onde contigo
e o Outono corra pelas ruas.
A luz que pisamos é tão perfeita
que não pode morrer, como não morre
o brilho do olhar que te viu despir. 

Eugénio de Andrade
" Poesia ", 2000 







O meu riso vai alto.



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O meu riso vai alto,
Mais alto que os chapéus dos cardeais
Mais alto que a esperança
Os meus seios riem quando o sol brilha,
Apesar dos meus fatos apesar do meu noivo.
Feia que sou, sou feliz.
Deus e os vampiros
Amam-me.

Joyce Mansour
Trad. Mário Cesariny
Rosa do Mundo : 2001 Poemas Para o Futuro
Assírio & Alvim, 2001


Fluxo Menstrual.



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A tal assembleia popular dos indignados fez-me lembrar uma amiga da minha irmã que vive numa comunidade hippie perto do Cercal do Alentejo. Durante a adolescência, não era diferente de nós, sentia-se de esquerda, era de esquerda. Era a esquerda que cuidava dos jovens, dos pobres, dos excluídos, das minorias. Uma pessoa tinha de ser de esquerda porque a defesa de um núcleo de direitos e valores parecia pertencer em exclusivo à esquerda. Depois, numa altura em que toda a gente, uns mais, outros menos, guinou à direita, - uma pessoa arranja um emprego, casa, tem filhos, que diabo, é a vida que nos torna mais conservadores, - a amiga da minha irmã não guinou nem à esquerda, nem à direita. Pura e simplesmente, saiu do caminho. Largou o emprego, pegou nas saias compridas e nas alpercatas, e foi viver para a tal comunidade hippie: é naturista, anarquista, ecológica, é pelo poli amor, tem horror a antibióticos e não vacina o filho. Até aí nada de mal. Cada um vive como quer e se há mulheres que acham que podem viver sem pensos higiénicos, empapando o fluxo menstrual em paninhos de algodão, isso é lá com elas. O problema é que a tal amiga da minha irmã e o namorado, um hippie alemão, chamado Rainbow, viviam de um subsídio de juventude que o exemplar estado alemão atribuía ao dito. Ou seja, a indignação e rebeldia do casal, não era sustentada pelos próprios, que passavam o dia em contemplações espúrias, era, isso sim, suportada pelo sistema que tanto desprezavam. Ao que parece, a amiga da minha irmã agora dá aulas aos velhinhos das aldeias do Cercal do Alentejo (desconheço que competências tem para fazê-lo) e é paga pela autarquia local que quer os seus seniores – é como agora chamam aos velhos – ocupados.


Nos dias que correm todos sentimos indignação, mas, a mim, aborrece-me que a minha indignação possa ser confundida com a indignação da amiga da minha irmã e de todos aqueles que, como ela, criticam o sistema, mas o que mais desejam é viver amparados por ele. Chateia-me que a minha indignação e a de muitos outros, por dispensar o folclore próprio da esquerda extremista, dos cartazes mal escritos, dos urros gratuitos ditos por mulheres mal depiladas, pouco valha e que a indignação da geração à rasca, dos indignados, dos acampados, mereça tanto aconchego.


Ana de Amsterdam,
a grande.

Amanhecer.



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Que se faz na hora de morrer? Volta-se
a cara contra a parede?
Agarra-se pelos ombros o que está perto e ouve?
Deita-se cada um a correr, como o que tem
as roupas incendiadas, para chegar ao fim?

Qual é o rito desta cerimónia?
Quem vela a agonia? Quem puxa o lençol?
Quem afasta o espelho por embaciar?
Porque a esta hora não há mãe nem parentes.

Já não há soluço. Nada, mais que um silêncio atroz.
Todos são uma face atenta, incrédula
De homem da outra margem.

Porque o que sucede não é verdade.


Rosario Castellanos
Rosa do Mundo - 2001 Poemas Para O Futuro
Assírio & Alvim
2001


(poemas de todos os tempos,
de todos os espaços
e de todos os lugares.)


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I know a ghost can walk through the walls
Yet I am just a man, still learning how to fall ...

I am what I am
And what I am is who I am
I know what I know
And all I know is that I fell
If only I could walk through the walls
Then maybe I would tell you who I was
Yet I am just a man still learning how to fall
Yet I am just a man still learning how to fall...
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OS VOYEURS.