Ele há coisa mais natural do que um poeta amar o ovo estrelado?



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FERNANDO PESSOA NO MARTINHO DA ARCADA
 
ele há coisa mais natural do que um poeta amar o ovo estrelado?
é o que ouço dizer
que Pessoa para além de tudo
passando sem pressa de passar na praça maior do Tejo
sentado no café com versos e odores de mar
gostava de ovo estrelado
dizia que era um sol frito
as coisas que um poeta diz

ABEL NEVES
Telhados de Vidro, n.º 16, Averno, Lisboa, 2012.


Vai ser tão grande.



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Elisa Rodrigues
You Don't Know What Love Is (c/ Júlio Resende)


Deixem-me dormir, se faz favor.



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- Ben Clark: Não é este o paraíso prometido
E, não obstante, quem se apercebeu disso?
- Charles Bukowski: The problem with the world is that the intelligent people are full of doubts while the stupid ones are full of confidence.
- António Ramos Pereira:
Não me trancaram em nenhum sótão tendo eu treze anos, fui eu quem trancou o mundo no exíguo espaço que resta fora desta divisão

REGRAS DA CASA.



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Nunca omitir os infortúnios
e contar cada história até
ao fim. Tapar com panos
os espelhos; facas debaixo
da mesa. Consolar a coruja e
trinchar o morcego.
Nunca perder a raiva, aconteça
o que acontecer. Deixar entrar
quem quer que seja.

Hans-Ulrich Treichel
"Como se fosse a minha vida"
Quetzal editores
1994


Comunicado à Nação.



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* Sim, e é sempre por estas quadras.
(do irmão)

Pessoas #2



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Às vezes as pessoas
salvam-nos de outras pessoas
resgatam-nos do fedor da sua carne putrefacta
arrancam-nos aos braços do rancor
recordam-nos por que estamos neste mundo
emprestam-nos o coração sem juros a fundo perdido
erguem-nos do chão ou descem-nos de novo à terra
e seu calor protege-nos dos gelos
que nos aparecem em casa se estamos sós.

São pessoas apenas e parecidas
com as outras pessoas, estão aí
são a solução do mundo.


Lucas Rodríguez

Pessoas #1



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"As pessoas são cada vez mais e mais jovens
e não é justo exigir-lhes o impossível.

Por isso reafirmo-me, comprometo-me,
cuido-me e procuro não morrer."

More Die Of Heartbreak



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More Die Of Heartbreak 

Morrem mais de mágoa do que por radiações nucleares,
mas cá nos entretemos nós com activismos piolhosos,
enquanto isso, em muitos lares, escrever nos vidros
continua a ser a única separação entre a vida e a morte,
carta que salva uma mão de ferir outra ou de se perder
neste mal-estar perante as luzes ou uma fotografia antiga.

António Ramos Pereira
(excerto)

O Peso da Sombra.



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Inventarei o dia onde contigo
e o Outono corra pelas ruas.
A luz que pisamos é tão perfeita
que não pode morrer, como não morre
o brilho do olhar que te viu despir. 

Eugénio de Andrade
" Poesia ", 2000 







O meu riso vai alto.



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O meu riso vai alto,
Mais alto que os chapéus dos cardeais
Mais alto que a esperança
Os meus seios riem quando o sol brilha,
Apesar dos meus fatos apesar do meu noivo.
Feia que sou, sou feliz.
Deus e os vampiros
Amam-me.

Joyce Mansour
Trad. Mário Cesariny
Rosa do Mundo : 2001 Poemas Para o Futuro
Assírio & Alvim, 2001


Fluxo Menstrual.



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A tal assembleia popular dos indignados fez-me lembrar uma amiga da minha irmã que vive numa comunidade hippie perto do Cercal do Alentejo. Durante a adolescência, não era diferente de nós, sentia-se de esquerda, era de esquerda. Era a esquerda que cuidava dos jovens, dos pobres, dos excluídos, das minorias. Uma pessoa tinha de ser de esquerda porque a defesa de um núcleo de direitos e valores parecia pertencer em exclusivo à esquerda. Depois, numa altura em que toda a gente, uns mais, outros menos, guinou à direita, - uma pessoa arranja um emprego, casa, tem filhos, que diabo, é a vida que nos torna mais conservadores, - a amiga da minha irmã não guinou nem à esquerda, nem à direita. Pura e simplesmente, saiu do caminho. Largou o emprego, pegou nas saias compridas e nas alpercatas, e foi viver para a tal comunidade hippie: é naturista, anarquista, ecológica, é pelo poli amor, tem horror a antibióticos e não vacina o filho. Até aí nada de mal. Cada um vive como quer e se há mulheres que acham que podem viver sem pensos higiénicos, empapando o fluxo menstrual em paninhos de algodão, isso é lá com elas. O problema é que a tal amiga da minha irmã e o namorado, um hippie alemão, chamado Rainbow, viviam de um subsídio de juventude que o exemplar estado alemão atribuía ao dito. Ou seja, a indignação e rebeldia do casal, não era sustentada pelos próprios, que passavam o dia em contemplações espúrias, era, isso sim, suportada pelo sistema que tanto desprezavam. Ao que parece, a amiga da minha irmã agora dá aulas aos velhinhos das aldeias do Cercal do Alentejo (desconheço que competências tem para fazê-lo) e é paga pela autarquia local que quer os seus seniores – é como agora chamam aos velhos – ocupados.


Nos dias que correm todos sentimos indignação, mas, a mim, aborrece-me que a minha indignação possa ser confundida com a indignação da amiga da minha irmã e de todos aqueles que, como ela, criticam o sistema, mas o que mais desejam é viver amparados por ele. Chateia-me que a minha indignação e a de muitos outros, por dispensar o folclore próprio da esquerda extremista, dos cartazes mal escritos, dos urros gratuitos ditos por mulheres mal depiladas, pouco valha e que a indignação da geração à rasca, dos indignados, dos acampados, mereça tanto aconchego.


Ana de Amsterdam,
a grande.

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OS VOYEURS.