Como lobos em períodos de seca
crescemos por toda a parte
amámos a chuva
amámos o outono
um dia até pensámos
em enviar uma carta de agradecimento ao céu
com uma folha de outono como selo de correio
acreditávamos que as montanhas desapareceriam
os mares se dissipariam
apenas o amor seria eterno
de súbito separámo-nos
ela gostava de sofás compridos
e eu de longos navios
ela gostava de sussurrar e suspirar nos cafés
eu gostava de saltar e gritar nas ruas
e, apesar de tudo,
os meus braços vastos como o universo
estão à espera dela.
"Nem todas as verdades são para todos os ouvidos."
"Ódio é um amor que fracassou. E vice-versa."
Tinha um ligeiro feeling de que isto de dar tempo de antena a fashion victims ainda um dia havia de dar raia.
Agora, enquanto decidem se a rapariga quer'ma mala ou afinal já não quer'ma mala, resta-nos esperar que a Samsung descubra que o Sr. Frazão, da Rua da Junqueira (que vende as melhores e mais baratas alheiras de toda a zona ocidental de Lisboa), tem uma opinião bastante definida sobre os "televisores fininhos" da Samsung; que os recomendou aos vizinhos lá da rua e que, ouvi dizer, até o Sporting parece jogar melhor nos verdes daquela televisão. O senhor Frazão não falha.
[quem passar pela vitrine do tasco e o vir a virar entrecosto ao meio-dia,sabe que o senhor Frazão não falha : Não há tempo.]
Tive um part-time na Sumol de Pombal : chegava lá, encostava-me a uma máquina e ficava a ver as garrafas a passar - a passar - a passar à espera que aparecesse uma que fosse defeituosa (rótulo, rolha, mossa). Era péssimo. A parte boa era que me deixavam ouvir música à vontade e, à pala disso, acabei por ouvir alguns álbuns que, de outra forma, provavelmente me teriam escapado. Lembro-me de, a partir de alguns deles, ter tido algumas ideias para curtas (homónimas), por lhes ter sentido uma coesão muito especial : Modern Guilt (do Beck), Real Life (Joan as Policewoman), Dear Science (dos TV On The Radio). Como tirar apontamentos - lá isso - não me deixavam, acabei por me ir esquecendo do que tratavam (salvo raras imagens fugazes; e os nomes que lhes daria, claro; e as bandas sonoras que meteria, claro).
Na altura, produzia-se um Sumol Laranja com Chocolate, que hoje, graças a um comentário da Sumol no Facebook, acabei por confirmar que já não existe (ainda bem, porque era mesmo uma merda!). Foi um comentário essencialmente informativo: não é bom, não é mau; é verdade. E há lá coisa de que eu goste mais do que da verdade?
Fora isto, não me peçam opiniões sobre a Sumol : são completamente enviesadas. Se me perguntarem "Sumol?" e me derem meio segundo para responder, não se admirem que vos venha falar de passadeiras ou engrenagens.
E depois, a notícia do dia. A única.
AMOUR, esse murro no estômago, na corrida aos Óscares. Com 5 nomeações, com a Rita Blanco - a grandessíssima Rita Blanco - com o peso do Mundo cingido a quatro paredes.
Anne Hataway, a minha Anne Hataway, na mira (Hélas, que se fazia tarde!). E ainda a pequena (e, segundo consta, grande) Quvenzhané Wallis, que me preparo agora mesmo para descobrir quem é.
Não sei o que se passa com 2013,
mas está a ser inacreditável.
Cansado de escribir sobre pájaros de verlos escucharlos cada mañana de leer sobre pájaros suaves y rapidos cansado cansado de esa imagen repetida acabé con todos los pajaros del vecindario después acabé con los pájaros de los poemas después con los poemas y por ultimo soñé soñé que yo era un gran pájaro y no me animé bajé el caño del revólver. Juan Carlos Moisés
É NA TERRA NÃO É NA LUA (2011), de GONÇALO TOCHA. trailer | site
A senhora que fazia queijo ensinou-me que os queijos são como os bebés, só que não chorame vi aqui todo o interesse em nutrir um cada vez maior carinho por este género de lacticínio (pelo menos enquanto as propostas de abono familiar não se tornarem decentes).
O senhor da oficina, Corvino por adopção, diz-nos que tem muito muito que fazer, mas que não lhe apetece nada; que um homem na ilha, sem mulher, dá em doido. Acaso a maioria dos espectadores - tal como eu, até então - nunca haverá assimilado
que os serviços de prostituição, apesar de um bem de valor indelével
para a sociedade, lamentavelmente, ainda não chegam ao Corvo; que
comprar uns momentos de amor, poderá irremediavelmente passar por
ter de comprar também um bilhete para a avioneta e que, para mais, é referido no filme que nos últimos anos as
ovelhas praticamente desapareceram da ilha.
E em época eleitoral, os habitantes, extasiados pelo corrupio que os megafones e cartazes trazem à ilha, garantem quea política é a melhor coisa que pode haver- Nós quase acreditamos.
Algures a meio do filme do Gonçalo Tocha (mais para o fim do que a meio, sejamos precisos e fujamos ao hábito linguístico) um birdie, deleitado observador de aves norte-americano, diz-nos quecerta vez viu, na Ilha do Corvo, um pássaro tão raro que vomitou.
Foi nesse momento que achei que seria injustíssimo se não vomitasse também eu, ali, naquela sala de cinema, àquela hora, homenageando com a devida brutalidade - a do pós-opio - uma das coisas mais bonitas que tinha visto nos últimos tempos - aquela projecção, naquela tela, à minha frente, àquela hora.
A minha biografia é evidentemente excepcional: Tive um Pai, uma Mãe, nasci numa Casa, fui à Escola da vila,depois do concelho, mudei de distrito para continuar.
Os meus contemporâneos alimentam
uma curiosidade fétida.