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Cesário - A Débil



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Eu que sou feio, sólido, leal,
A ti, que és bela, frágil, assustada,
Quero estimar-te, sempre, recatada
Numa existência honesta, de cristal.

Sentado à mesa de um café devasso,
Ao avistar-te, há pouco fraca e loura,
Nesta babel tão velha e corruptora,
Tive tenções de oferecer-te o braço.

E, quando socorrestes um miserável,
Eu, que bebia cálices de absinto,
Mandei ir a garrafa, porque sinto
Que me tornas prestante, bom, sudável.

«Ela aí vem!» disse eu para os demais;
E pus me a olhar, vexado e suspirando,
O teu corpo que pulsa, alegre e brando,
Na frescura dos linhos matinais.

Via-te pela porta envidraçada;
E invejava, - talvez que não o suspeites! -
Esse vestido simples, sem enfeites,
Nessa cintura tenra, imaculada.
 

Soberbo dia! Impunha-me respeito
A limpidez do teu semblante grego;
E uma família, um ninho de sossego,
Desejava beijar o teu peito.

Com elegância e sem ostentação,
Atravessavas branca, esbelta e fina,
Uma chusma de padres de batina,
E de altos funcionários da nação.

E foi, então que eu, homem varonil,
Quis dedicar-te a minha pobre vida,
A ti, que és ténue, dócil, recolhida,
Eu, que sou hábil, prático, viril.


Cesário Verde

Meu amor, a casa está tão sozinha que os pássaros vêm morrer lá dentro.



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Meu amor,
a casa está tão sozinha que
os pássaros vêm morrer lá dentro.
Nada mudou, mas falta
a mão para acariciar o gato
e acolher a ninhada secreta,
o sorriso que enchia o tanque
e fazia crescer a horta.

Já ninguém apanha as laranjas mais altas
ou usa a sombra da nogueira.
E até os ciprestes se tornaram redundantes
ao ponto de os abatermos:
a ausência diz-se melhor no esplendor
inútil das rosas sem esse olhar,
nas papoilas raras que duram
o tempo de uma fotografia.

Um dia, deixaremos também uma casa assim,
casulo abandonado a sobreviver-nos.
Um de nós escutará as asas ansiosas
na chaminé, antes de pousar o livro
e amparar o último pássaro.
Só parecerá menos triste
porque não teremos, então,
nada mais a perder.

inês dias
resumo, a poesia em 2011
documenta
2012

Domingo hoje.



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É domingo hoje
mas nós não saímos

é o único dia
que não repetimos

e que dura menos

Mas põe o teu rouge
que eu mudo a camisa

Tomaremos chá
leremos um pouco

e iremos à varanda
absortos

António Reis
in Novos Poemas Quotidianos

Lobos #2



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Amo os lobos, porque amo os temperamentos fortes e rectos que preferem a violência à manha.
Os temperamentos poderosos e ricos são um terreno privilegiado para a santidade e a delicadeza de um ser forte é ao mesmo tempo mais virtuosa e mais subtil que a de um fraco.
Quando se é naturalmente tentado a dominar os outros, mais belo é então o domínio de si próprio.
- Raymond Léopold Bruckberger

Lobos #1



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As pessoas da vila não gostavam de mim,
porque eu dizia sempre o que pensava
e também porque atingia abertamente, com protestos,
aqueles que me atacavam, sem ocultar a mágoa
ou alimentar o rancor.
Louva-se muito o acto desse rapaz espartano
que escondeu sob a sua túnica um lobo,
deixando, sem um único lamento, que este o devorasse.
Eu penso que há mais valentia em agarrar o lobo
e combate-lo abertamente, mesmo em plena rua,
por entre a poeira levantada e os uivos de dor.
A língua pode ser desordeira,
mas o silêncio envenena a alma.
Quem quiser, que me censure ─ eu estou satisfeito.


Edgar Lee Masters
Spoon River
Relógio d´Água
2003

ÁLVARO MUTIS (1923-2013)



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SONATA

Otra vez el tiempo te ha traído
al cerco de mis sueños fanerales.
Tu piel, cierta humedad salina,
tus ojos asombrados de otros días,
con tu voz han venido, con tu pelo.
El tiempo, muchacha, que trabaja
como loba que eiitierra a sus cachorros
como óxido en las armas de caza,
como alga en la quilla dei navio,
como lengua que lame la sal de los dormidos,
como el aire que sube de Ias minas,
como tren en la noche de los páramos.
De su opaco trabajo nos nutrimos
como pan de cristiano o rancia carne
que se enjuta en la fiebre de los ghettos.
A la sombra del tiempo, amiga mía,
un agua mansa de acequia me devuelve
lo que guardo de ti para ayudarme
a llegar hasta el fín de cada día.

Álvaro Mutis


ANTÓNIO RAMOS ROSA (1924-2013)



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Já muito fragilizado, o poeta, que estava hospitalizado desde quinta-feira, teve ainda forças para escrever os nomes da sua mulher, a escritora Agripina Costa Marques, e da sua filha, Maria Filipe. E depois de Maria Filipe lhe ter sussurrado ao ouvido aquele que se tornou porventura o verso mais emblemático da sua obra — “Estou vivo e escrevo sol” —, o poeta escreveu-o uma última vez, numa folha de papel. Público


«Em qualquer parte um homem
discretamente morre.

Ergueu uma flor.
Levantou uma cidade.

Enquanto o sol perdura
ou uma nuvem passa
surge uma nova imagem.

Em qualquer parte um homem
abre o seu punho e ri.

Antologia Poética
António Ramos Rosa
Ed. Dom Quixote

Onde quer que eu esteja.



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Onde quer que eu esteja, em qualquer lugar
na Terra, escondo dos outros a certeza de
que   n ã o  s o u  d a q u i.


Alguns gostam de poesia - Antologia
Czeslaw Milosz e Wislawa Szymborsk

Adormecer em Maio e acordar em Setembro para escapar à agressão do sol.



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Sonho com uma casa claustrofóbica,
um emprego anónimo e mecânico
numa terra sem presente nem futuro;
sonho ser impotente e já desonerado
de qualquer prova da minha existência;
sonho-me em silêncio, quase pétreo,
e sem ninguém que me trate por tu;
sonho-me a viver apenas para o relógio,
pontualíssimo a abrir e fechar portas
e persianas e caixas e olhos;
sonho-me remediado de dinheiro, à justa,
cozendo uma cavala, descascando uma maçã,
sem que a maçã seja mais que uma maçã;
sonho-me a apagar a luz atrás de mim,
tacteando no escuro uma parede escura,
sem memória de qualquer outra parede;
sonho-me a adormecer em Maio e acordar em Setembro
para escapar à agressão do sol;
sonho-me a beber apenas água
e a tomar comprimidos para os rins
e a urinar dolorosamente pouco;
e sonho mais: sonho que nunca te vi.


- Miguel Martins

Sobre o lado esquerdo.



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De vez em quando a insónia vibra com a
nitidez dos sinos, dos cristais. E então, das duas
uma: partem-se ou não se partem as cordas tensas
da sua harpa insuportável.
No segundo caso, o homem que não dorme
pensa: «o melhor é voltar-me para o lado esquerdo
e assim, deslocando todo o peso do sangue sobre a metade mais gasta do meu corpo, esmagar o coração.
 
Carlos De Oliveira
Sobre o lado esquerdo
1968

Inverno



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Como lobos em períodos de seca
crescemos por toda a parte
amámos a chuva
amámos o outono
um dia até pensámos
em enviar uma carta de agradecimento ao céu
com uma folha de outono como selo de correio
acreditávamos que as montanhas desapareceriam
os mares se dissipariam
apenas o amor seria eterno

de súbito separámo-nos

ela gostava de sofás compridos
e eu de longos navios
ela gostava de sussurrar e suspirar nos cafés
eu gostava de saltar e gritar nas ruas
e, apesar de tudo,
os meus braços vastos como o universo
estão à espera dela.

"Inverno"
Muhammad Al-Maghut

Cansado de escribir sobre pájaros



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Cansado de escribir sobre pájaros
de verlos
escucharlos cada mañana
de leer sobre pájaros
suaves y rapidos cansado
cansado de esa imagen repetida
acabé con todos
los pajaros del vecindario
después acabé con los pájaros de los poemas
después con los poemas
y por ultimo soñé
soñé que yo era un gran pájaro

y no me animé
bajé el caño del revólver.

Juan Carlos Moisés

Ele há coisa mais natural do que um poeta amar o ovo estrelado?



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FERNANDO PESSOA NO MARTINHO DA ARCADA
 
ele há coisa mais natural do que um poeta amar o ovo estrelado?
é o que ouço dizer
que Pessoa para além de tudo
passando sem pressa de passar na praça maior do Tejo
sentado no café com versos e odores de mar
gostava de ovo estrelado
dizia que era um sol frito
as coisas que um poeta diz

ABEL NEVES
Telhados de Vidro, n.º 16, Averno, Lisboa, 2012.


Deixem-me dormir, se faz favor.



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- Ben Clark: Não é este o paraíso prometido
E, não obstante, quem se apercebeu disso?
- Charles Bukowski: The problem with the world is that the intelligent people are full of doubts while the stupid ones are full of confidence.
- António Ramos Pereira:
Não me trancaram em nenhum sótão tendo eu treze anos, fui eu quem trancou o mundo no exíguo espaço que resta fora desta divisão

REGRAS DA CASA.



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Nunca omitir os infortúnios
e contar cada história até
ao fim. Tapar com panos
os espelhos; facas debaixo
da mesa. Consolar a coruja e
trinchar o morcego.
Nunca perder a raiva, aconteça
o que acontecer. Deixar entrar
quem quer que seja.

Hans-Ulrich Treichel
"Como se fosse a minha vida"
Quetzal editores
1994


Pessoas #2



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Às vezes as pessoas
salvam-nos de outras pessoas
resgatam-nos do fedor da sua carne putrefacta
arrancam-nos aos braços do rancor
recordam-nos por que estamos neste mundo
emprestam-nos o coração sem juros a fundo perdido
erguem-nos do chão ou descem-nos de novo à terra
e seu calor protege-nos dos gelos
que nos aparecem em casa se estamos sós.

São pessoas apenas e parecidas
com as outras pessoas, estão aí
são a solução do mundo.


Lucas Rodríguez

More Die Of Heartbreak



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More Die Of Heartbreak 

Morrem mais de mágoa do que por radiações nucleares,
mas cá nos entretemos nós com activismos piolhosos,
enquanto isso, em muitos lares, escrever nos vidros
continua a ser a única separação entre a vida e a morte,
carta que salva uma mão de ferir outra ou de se perder
neste mal-estar perante as luzes ou uma fotografia antiga.

António Ramos Pereira
(excerto)

O Peso da Sombra.



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Inventarei o dia onde contigo
e o Outono corra pelas ruas.
A luz que pisamos é tão perfeita
que não pode morrer, como não morre
o brilho do olhar que te viu despir. 

Eugénio de Andrade
" Poesia ", 2000 







O meu riso vai alto.



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O meu riso vai alto,
Mais alto que os chapéus dos cardeais
Mais alto que a esperança
Os meus seios riem quando o sol brilha,
Apesar dos meus fatos apesar do meu noivo.
Feia que sou, sou feliz.
Deus e os vampiros
Amam-me.

Joyce Mansour
Trad. Mário Cesariny
Rosa do Mundo : 2001 Poemas Para o Futuro
Assírio & Alvim, 2001


Amanhecer.



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Que se faz na hora de morrer? Volta-se
a cara contra a parede?
Agarra-se pelos ombros o que está perto e ouve?
Deita-se cada um a correr, como o que tem
as roupas incendiadas, para chegar ao fim?

Qual é o rito desta cerimónia?
Quem vela a agonia? Quem puxa o lençol?
Quem afasta o espelho por embaciar?
Porque a esta hora não há mãe nem parentes.

Já não há soluço. Nada, mais que um silêncio atroz.
Todos são uma face atenta, incrédula
De homem da outra margem.

Porque o que sucede não é verdade.


Rosario Castellanos
Rosa do Mundo - 2001 Poemas Para O Futuro
Assírio & Alvim
2001


(poemas de todos os tempos,
de todos os espaços
e de todos os lugares.)
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OS VOYEURS.