Os anos.



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Fosse por mim e deixaria morrer à fome os anos.
A contabilidade excessiva do corpo que, ao habituar-se aos meses, se vai deixando ficar para trás do futuro.
A repartição dos tempos facturando as dívidas passadas: o dever do vivo é ter as contas fechadas com o que lhe coube de mortalidade no mundo.
Penhoram-se pessoas, palavras pensadas, leiloadas em caixões prestes a fechar, – quem dá mais do que uma flor? – Liquidado à terra por duas ou três coroas de defunto, ao corpo resta-lhe ainda esperar o fecho do tempo que, como qualquer outro serviço público, só fecha portas à saída do último utente.
Penso no absurdo de toda a parafernália, enquanto me sento mais uma vez junto a uma coroa; é o futuro, quando a lápide colocada de fresco servir apenas para calcetar mais uma secção do cemitério.
Uma herança de ossos, que se sobe sobre a morte de outros para se saber o quanto de imortalidade nos sobrará da morte. Como eu soube ao descer por mortes centenárias, buscando-lhes raízes em montes silvados para descobrir que tenho guardada a outra parte da alma num lado avesso às ondas do mar.

Fosse por mim e morreriam à fome os anos: cães magros arrastando as ruas com o seu latido de abandono, amarrando-as aos meus pés para que lhes sinta o peso em cada passo, e eu, que me farto das cidades nos calcanhares, levando-as comigo sem as olhar, sem as alimentar, que mortas de abandono talvez me larguem as ruas, os tempos e os anos, que nunca terão futuro suficiente para me pagarem as horas de que lhes sou credora.

Beatriz Hierro Lopes

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