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#2



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in Mad Men, de Matthew Weiner

#1



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( Com as devidas supressões. )


Para o Diogo
A juventude - Diogo - é um tom necessário na textura da almofada que mostra-se, muitas vezes, em vincos dolorosos. Ter 20 e picos anos é garantir a fortuna da boa disposição e ter acessos de cólera (...). É a raiva de não encontrar vida nas palavras de um livro, quando se tem a tua idade. Pouco tempo depois, ficamos mais velhos, por várias razões, e o segredo parece ser não viver. Mas como é possível estar morto antes do tempo? Como é possível não sermos contemplados com a ausência de alguém? Não vivendo? Talvez. E se formos o morto fingido que nunca reage às queimaduras do fogão? As cicatrizes permanecem. Até nos mortos que fingem andar por aí. Pequenas coisas: tens pouco tempo para uma vida gloriosa. Aproveita estas folhas que ainda estão nas árvores mas não descanses neste Verão, nem no outro. Vive, enquanto não és um morto vivo a ler a vida em páginas desta biblioteca itinerante chamada poesia.

Tenho Dito.



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The O.C.

Tenho Dito (têm-me dito).

Madame Bovary #7



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( Definição )

B O V A R I S M O
"Entende-se por Bovarismo o estado de insatisfação crónica de uma pessoa, produzido pelo contraste entre as suas ilusões e aspirações (com frequência desproporcionadas relativamente às suas próprias possibilidades) e a realidade, que a costuma frustrar."

De Superficies.



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O que me preocupa verdadeiramente n e s t a s entrevistas que Mário Crespo insiste em fazer, anualmente ou quase, a António Lobo Antunes nem é bem o ar altamente baboso do entrevistador ao ler passagens (e, diga-se de passagem, durante toda a restante entrevista), nem sequer a ronha ronha palavreada do costume do entrevistado, de ano para ano, mais crente da divindade da sua escrita (não sou eu, é um anjo), ou tampouco a nimiedade - a um triz da osbscenidade - de palmadinhas recíprocas nas costas de um, nas costas do outro; é mesmo tentar perceber se aquelas camisolas de malha e camisas azul-bebé são, ou não, as mesmas todos os anos.

Cenas Mesmo Fófinhas para a Invernia que cá se faz sentir #2.
Da Morbidez #2.



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Dormindo no quentinho dos teus fantasmas, agora, literalmente.
[ Por Ben Cuevas, para The Wassaic Project. ]

Vote as you please, But Please vote.



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Para os que me conhecem, não seria preciso ser absolutamente perspicaz (ou céptico) para desconfiar à partida de que, como tudo ameaçou, os prometidos posts semanais sobre o que tenho andado a ouvir não teriam essa cadência semanal; para os que não conhecem, esta é uma bela prova de como devem impreterivelmente acreditar naquilo que digo. Uma vez, no início do Outono, a minha avó má, a Nhanha, ordenou ao meu avô-pau mandado, o Nhanha, que envenenasse o cão - Fiel - herança legada pela morte da prima Júlia, «essa regalona», que havia deixado o bicho muito mal habituado de modo que este se recusava a comer tudo o que não fossem bolachas Maria; em dias de sorte lá lhe calhavam umas galletas, em dias de azar comia só porrada; a seguir, enforcou-se a cabra preta que tinha um tumor no cu, e, logo depois - não necessariamente por esta ordem - sem se saber exactamente sob que circunstâncias ou causas, aparece a mula morta. Partilham todos da mesma vala, sita no meu quintal, e ainda há lugar para mais um. «Há sempre lugar para mais um». Ou, na perspectiva funérea do meu pai, "Eles gostam é de nos ver todos a passar-lhe entre as pernas".
Também não vou fazer a rubrica agora; Isto é, além de não vos dar nada ainda vos venho pedir coisas: Quero um nome. Só há 3 hipóteses, que estarão a voto, por tempo indefinido, imediatamente abaixo do cabeçalho. Estou à espera. (Ouviram os dois?)

Tu, que de cedo torceste o pepino #2.



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Menino Jesus, sabia que ias sacar da complacência e, tentando compensar esse nefasto caso dos cornichons, presentear-me com o melhor piropo que jamais me foi endereçado nesta vida.
Um escândalo, um escândalo!

Tu, que de cedo torceste o pepino.



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Menino Jesus, haverá maior angústia no Mundo do que a de comprar um frasco de cornichons e não haver um paneleiro em casa com competência para abri-lo? Tenho a certeza que não.

Esboçando curtes em estrangeiro. Curtas*, enganei-me.



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Jane - He's cute, plays guitar and seems kinda those fragile lovely mini-pieces you just don't find every hour around every corner. Well, not a whole package but some package anyway...
Even his speech problem is cute... ( ) Don't you think? 
Chloe - Easy. He loves too many people, in too many places, at the same time, and in the most meaningless ways, and words.
Jane - ... What the fuck is your problem? 
( )
Chloe - I love him. 
Jane - Nooo... 
( ) 
Chloe - But I could. 
( ) 
Jane - Start smoking, please.
  

Jane - There's just several things I still don't understand. 
Chloe - Schrodinger's cat? 
Jane - 'bout you. 
Chloe - Keep on smoking, please. [...]
 
© Johnnys Bird - www.johnnysbird.com

A estraga-fodas.



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( Ainda sobre Myra, de Maria Velho da Costa. )


Arrancada ao Brecht

 
Primeiro: digam-me o que disserem, acho que a Maria Velho da Costa não tinha nem a idade nem o direito de se deixar deslumbrar desta maneira.
Myra é um livro de passagens e de ideias interessantíssimas - a leitura vale, desde logo, por isso. Mais interessantes até a uma segunda, terceira, quiçá, quarta leitura. Porque se repara em pormenores que pareceram coisas banais à primeira mas que não o são, na realidade. A nível de escrita não tenho nada de que me queixar. Nem preciso, nem quero, nem devo; tampouco posso.
O que me chateia até ao tutano, neste livro, prende-se com a própria estória, que aparece desenrolada num conjunto de, como referi, passagens e ideias interessantíssimas mas, a meu ver, um tanto ou quanto deslocadas de contexto. Perdoem-me o desencanto, mas há muito que deixei de conseguir imaginar situações literárias de gabarito reportadas ao nosso pequeno rectângulo (tampouco à ilha da Madeira), principalmente quanto se pretende pejá-las de personagens de uma riqueza cultural que assenta que nem uma luva à Literatura mas que nada tem que ver com a nossa realidade social. E este caso é sintomático: Uma imigrante russa ao abandono numa praia... da Caparica; que, do alto dos seus 14 anos, passados em grande parte numa vida de clandestinidade e precariedade, decide baptizar um cão que encontra na praia de Rimbaud (dissimulando, no entanto, o nome para Rambô); encontrada depois por um camionista chamado... Kleber que a leva para uma quinta de uma pintora que acaba por se vir a perceber, mais tarde, ser sua amante. Por outra palavras, uma Paula Rego generosíssima que lhe mostra grandes filmes, e grandes livros e grandes je ne sais quois. E aqui entra a parte da citação, do deslumbramento, que se prolonga por todo o livro. Ele é Camões, Herbertos Helder, Pasolinis, nhó nhó nhó, nhó nhó nhós. Coisas de culto, coisas imprescindíveis. Há frases que parece que foram ali encaixadas para que se pudesse encaixar mais uma citação "Myra entende que o dia foi de passos em volta". Como se se tivesse de provar aos leitores alguma coisa; como se houvesse essa necessidade. Eu não precisava que me provassem nada, queria que me dissessem coisas que eu já não soubesse. É muito bonito um Pasolini sim senhora, e depois? A casa das citações e dos deslumbramentos é a dos 20, a minha. De se mostrar que se conhece isto e aquilo, e não sei quê e não sei que mais (e, quem sabe?, à pala disso, um ou outro engate com alguma categoria). Como nesses filmes de agora que gostam de apelidar de "indie": citações, referências, banda sonora disto, banda sonora daquilo. Indie is the new hype, e depois? Aborrece-me. As pessoas metem-se com os Nomes mas não os querem sofrer, querem mostrá-los.
Myra desce depois ao Algarve encontrando um mestiço de quem se enamora. E onde mora o rapaz? Numa cabana? No circo? Numa quinta? Não, numa casa inteligente! Daquelas com botões. Isto foi a gota final. Uma casa inteligente é tudo, tudo, tudo menos literária.
Mas isto sou eu a implicar, a apontar o dedo, a torcer o nariz. Como de costume. Apesar de tudo, na generalidade, gostei e, inclusive, recomendo.
 Como sou muito estraga-fodas conto-vos o quase-fim, que é o seguinte: tanta coisa, tanta coisa e, vai-se a ver, e o Dom Juan, que tem uma casa inteligente, que tem uma égua e uma gata persa, filmes, filmes, filmes, vinis, vinis, vinis, óperas, óperas, óperas e não tem uma pila. É de um(a) leitor(a) perder a pica. E poderia agora dizer-se, quase literalmente, que sou uma grande estraga-fodas.
(Não tanto quanto a Maria, é certo.)

Huelga General.



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Neste vídeo, captado na Plaza de Santa Ana, em Madrid, Panoramix dança "Caperucita Roja" ao som da viola daquele que é - evidentemente - Marx, no decorrer de uma das festas de recepção à Huelga General, que é como quem diz - isso mesmo - "Greve Geral" de 29 de Setembro, aproveitando ainda para celebrar um IVA a uns espectaculares 18%.
Tudo aponta para que a greve tenha sido um absoluto fracasso. Não é preciso ser incrivelmente perspicaz para perceber isso; dada a quantidade de gente que passeava pelas ruas, que fazia compras, que vendia jornais, que se comia viva nos relvados depois de, tudo assim o indica, mais um dia de aulas.
É preciso ser ainda menos perspicaz para perceber que, espanhol que se preze, arranja sempre pretexto para regabofear. Nem que seja para celebrar muito bem, demasiado bem a chegada de uma manifestação convocada porque, afinal, está tudo mal. But, Who cares? Eu não.

No lo mires con recelo si te invita a merendar, 
anda, tontona, aprovecha y no te hagas más la estrecha..., 
¡ya lo decía Ronsard.

Acho artístico.



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I'm not the kind of feeling sorry for myself.
I stay home and I listen to the Belle and Sebastian.
Try to keep it simple as can be,
it works for them, should work for me.
(But what comes out is poor. And sometimes boring.) 
Mariana Ricardo

 
Mais do que de gente deprimida, gosto de gente que adora estar deprimida; e, mais do que adorar estar deprimida, adora mostrar ao mundo o quão deprimida está. Depois, num patamar mais elevado de adoração, a roçar o amor, gosto Bu-é, mas Bu-é do leite de canela e limão Hacendado.
Desgosto também particularmente do género de recanto cibernáutico (um blog, quiçá) que consiste em que se poste, insistente e - se possível - diariamente, pedaços puros de depressão, que, aparte estarem dactilografados - modernidade tantas vezes deixada ao desgoverno das mãos mais incautas, se apresentam do modo mais primitivo em que esta se pode exibir. Alguns exemplos: "Estou triste", "Estou perdido/a", "Não sei o que fazer da minha vida", "Foda-se", "Sinto-me cada vez pior", "Vou chorar". Deprimente. Ainda sou do tempo em que se deprimia na cama, em posição fetal; depois chegava a governanta do útero - a mãe, por assim dizer - e dizia: "CARALHO, outra vez a dormir?"; a seguir, para tornar tudo pior, ligava o aspirador. Uma situação que, transportada para a modernidade, ou melhor, para a Pós-Modernidade, equivale a estar-se absolutamente deprimido e, navegando pela web, dar de trombas com um excerto de Bernardo Soares, o Pai, a que não se resiste postar. Receio poder assim afirmar-se estarmos perante uma patologia bloguística, e fantasio com o dia em que, em cima de um palco, ostentando um t-shirt que diz "Fernandinho, vá ás putas, não me chateie" possa defender uma tese em que se estabelece uma relação de directa proporcionalidade entre a sintomática, exacerbada exibição de traços levianos de depressão e os níveis de pretensão à cena artística. Alguns exemplos de perturbações/patologias/situações patológicas altamente artísticas: a tal da depressão; bipolaridade, esquizofrenia, epilepsia daquela igual à do Ian Curtis, pulsos com atracção crónica por metais e objectivas, goela com atracção crónica por fármacos, ataques de pânico, claustrofobia, insónia, aquela doença em que crescem às pessoas tiras de fita-cola cruzadas sobre os lábios, anorexia da nervosa e, de um certo ponto de vista, a sífilis, muita em voga na cena artística parisiense do século XIX (ver rodapé do blog) é coisa para dar aso a umas cenas de performance corporal altamente artísticas. Se quiserem, sugiro-vos dois ou três sítios altamente artísticos a este nível em Lisboa, como o Viking, no Cais do Sodré, de onde, da última vez que lá estive, um amigo meu saiu com "Sida na boca", depois de um - digamos - belo "streep".
A minha profe da primária, que sempre foi uma grande vaca, ensinou-me que Nunca digas nunca. Apoiada na memória deste ensinamento e na crença - demasiadas vezes, evidência - de que Pode sempre ficar pior, não jurarei a pés juntos que este recanto jamais virá a padecer dessa patologia artístico-bloguística.
Se padecesse, postaria este vídeo, seguido do argumento:
Outros tipos de patologias bloguísticas: A minha.
Programar um vídeo e acabar com 30 linhas de chouriço enchido.

Summer Lies.



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Tudo o que se diz no Verão é mentira. À noite, é ainda menos verdade.

Setembro.



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3º TOMO.
É verídico. Mudei de cidade.
Porque quem está mal, muda-se. Já dizia minha avó, que é uma grande ladina. Porque, sobretudo, me cansava pero no me encantava e se o encanto é a virtude sem a qual todas as restantes são inutéis - já dizia o versado do Stevenson - uma pessoa quer mais é fazer-se às nuvens, aos carris ou, na mais fatigante das hipóteses, à estrada, e vaguear, inspeccionar, perder-se, mirar, revolver, testar, e procurar muito por esse, como direi?, virtuosismo. Se possível, encontrar.
Ficam então avisados: estou aqui. Eu, sem o meu Stevenson, que afinal perdi no vazio da onda. É verídico. : Amo, sobretudo, imensas coisas e, em particular, a veracidade. E isto é puramente, como direi?, verídico.
You know.

HOLY-DAYS.



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.
Let's Have a (heart)Break. 
Volta-se sei lá.

 





PREFÁCIO 
HOJE SINTO-ME METICULOSAMENTE ASSIM:
Nos dias tristes não se fala de aves.
Liga-se aos amigos e eles não estão
e depois pede-se lume na rua
como quem pede um coração novinho em folha. (...)

Nos dias tristes fala-se sozinho
e há sempre uma ave que pousa
no cimo das coisas
em vez de nos pousar no coração,
e não fala connosco.




* * * 


CAPÍTULO E POSFÁCIO
 VERSÃO INTEGRAL, DEFINITIVA, PÓSTUMA
 




* * *


NOTA FINAL DA AUTORA
« TUDO TEM DE DOER MIL ANOS, MIL VEZES 
Profundo pesar pelos que vagueiam longe, muito longe, da Verdade; 
Os mesmos por quem esperarei serena, muito serena; impávida;
até sempre e sem julgamento (um coma à superfície camuflando torrentes de sofreguidão).
Até lá, que vos doa Tudo.

 

.
 

Não, obrigada.



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É impressionante - tanto quanto repugnante - a forma como, a cada aparição - da voz e/ou do corpo - Pedro Paixão insiste, com garbo e descaramento, em declarar que para fazer um filme precisaria unicamente de uma rapariga e de uma arma. Que bonito.
O público, ingénuo ou esquecido, delicia-se muito e ri ainda mais. Aplaude. Como se não se estivesse sequer a usurpar, com alarmante soberba, uma ideia - e de resto, uma, ou aliás, várias concretizações - de dono (re)conhecido e há muito patenteada.

Pedro Paixão é, de resto, o tipo de escritor capaz de me chatear até ao tutano. A cada exibição pública lá insiste ele em expelir repetições das mesmas piadas, das mesmas teses, dos mesmos trocadilhos, sempre com um claro e óbvio - ou não assim tão óbvio - objectivo da angariação de fãs; uma distinta tribo de fãs - de preferência encabeçada por Fernando Alvim, que nos deu já variadíssimas provas em como, pelo menos em matérias literárias, não há muito por onde se confiar no seu gosto - que, sem nunca lhe detectar indício de pretensiosismo, o veja como a coisa literáriamente mais excêntrica desde a ruína do surrealismo, no século passado; que compre os seus livros, os cite, e os recomende mas, sobretudo, o eleve ao estatuto de "culto"; que o tome por uma espécie de Messias ou génio e, quiçá, lhe faculte propostas de blind dates que comecem com telefonemas e terminem em favorecimentos de cariz sexual. ( Ou casamento. Mais um. )

 

Neighbourhood.



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Uma vizinha veio cá perguntar se eu queria conengos.

Só pra verem o estado da coisa.



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A Zara, que é mainstream, também é indie.

Persigo-os.



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Primeira Tentativa 
Faltam 5 minutos para chegar o 16 e estou capaz de jurar - a pés juntos, senhores - que tenho a meu lado o meu personagem. Tem um enorme rasgão nas calças e uma investida compulsiva por tabaco, factores por si só suficientes para ter a minha mãe a querer-me afastada dele – é bom deixá-la continuar a pensar que pode gerir estas coisas. Tem vinte e tal anos, óculos de massa, o cabelo desgrenhado e aquele ar dos estudantes de Direito que, entediados pela inutilidade da maior parte das leis aglomeradas nos livros, acabam por descobrir na literatura os maiores encantos (às vezes, também acontece com os de Medicina que, fartos de pernas mortas, talham com letras formas diversas de falar das que vivem) – consigo lembrar-me de meia dúzia de casos. Deve ser por ter um dos pés não assente no chão que lhe acho piada - são sempre os pombos coxos que nos chamam a atenção. É evidente que tem frio. Eu também tenho. Assim como, com a sorte que não tenho, há-de estar a aguardar o 758 ou o 746 ou o 2, 3, 4, 5. Nunca o 16. É pela mesma ordem de ideias – a da minha falta de sorte ou propensão ao azar, entendam como quiserem – que, entretanto já no autocarro 16, consigo um lugar bem no meio da multidão, que é - precisamente - onde ele não está. Ele está lá, nos lugares traseiros, aninhado no i-pod e, agora que consegui chegar cá atrás, ele está ali à frente, à espera que as portas abram e possa então sair. Saiu.
( )
São sete e trinta e duas da tarde e JURO que começo a ter sono; JURO que não há aqui ninguém que me interesse e que dou por findado o meu trabalho.
( )
São sete e trinta e seis da tarde que é noite, e JURO que começo a sentir outra vez aquela minha descrença na espécie. Em geral. Segunda Tentativa São dez e cinco da noite e quero declarar que esta, como qualquer outra, é uma má hora para estar num dos muitos centros comerciais, que, como é sabido, mas não consensualmente aceite, são sítios quentinhos, enormes e horríveis.
PISO -1.
Neste centro comercial há uma clara-bóia sobre a qual transborda uma espécie de repuxo e com isto se justifica o nome do centro “Fonte Nova” ou, assim pelo nome do centro, porventura anterior à ideia do repuxo, se possa entender este fenómeno-provocado de um tecto que escorre. À parte as gotas de água, ninguém há-de prestar atenção a este senhor. Vejo-o sempre desde que cá cheguei: Sentado, abstraído e curvo. Observo-o. Porque é que não tem um cão? Podia ter um cão. O que melhor o caracteriza é aquele gesto anómalo, evidentemente delator de uma qualquer perturbação mental, que faz com que, debruçado sobre um chão limpo, polido e espelhado de centro comercial, vá movimentando as mãos alternadamente e em sentido ascendente. Para que percebam, é como se houvesse uma bica de água e ele a tentasse aparar com a mão esquerda, depois com a mão direita, com a esquerda, com a direita, e assim sucessivamente, de baixo para cima. Senta-se normalmente perto de uma loja que tem na vitrine um anúncio insólito. Mais ou menos isto: 

Admite-se empregado ou empregada, com mais de 45 anos de idade, sem experiência,
com disponibilidade
 
e impressiona-me pois que não o queiram contratar se me parece não haver um único requisito que não cumpra. Parece-me que passa aqui o dia todo. Não dorme, não come, não bebe, não veste as camisolas escuras que usa, nem as despe; não penteia o palmo e meio de cabelo grisalho, não lava a cara morena. Apenas carece de fontes imaginárias nas quais vai lavando as mãos das cercanias, (lavo de vós as minhas mãos) ao passo que nobremente ilustra o nome deste seu habitáculo. Será que gosta da música que aqui passa? Eu não. Às vezes fala sozinho, sem som. Terá 60 anos? Será que foi da guerra? Acerca dele, apesar de até gostar que fosse diferente, nada posso afirmar, mas antes perguntar. Será que ouve? Será que tem voz? Posso sentar-me? Passa uma rapariga que o olha com desdém. Sai um quarentão da casa-de-banho com aquele ar de benfiquista, e felizes que eles andam, nos dias que correm. Passa um securita que já nem olha – este senhor é mobília da casa. São 22:35 e os movimentos não cessam. São 22:36 e começo a divagar acerca daquilo que, daqui a 24 minutos, quando o centro encerrar, acontecerá a este senhor. Levanta-se. Olha com o mesmo desdém da rapariga que passou há bocado o chão que ela pisou. E agora, evaporou-se. Dado que desapareceu, tive de olhar para as montras: Ninguém há-de desconfiar que uma gaja, que ainda por cima tem um chupa-chupa na boca, não ache piada a um par de botas cor-de-rosa. 
Novembro de 2009
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OS VOYEURS.