Acho artístico.



8 COMENTÁRIO(S)
 
I'm not the kind of feeling sorry for myself.
I stay home and I listen to the Belle and Sebastian.
Try to keep it simple as can be,
it works for them, should work for me.
(But what comes out is poor. And sometimes boring.) 
Mariana Ricardo

 
Mais do que de gente deprimida, gosto de gente que adora estar deprimida; e, mais do que adorar estar deprimida, adora mostrar ao mundo o quão deprimida está. Depois, num patamar mais elevado de adoração, a roçar o amor, gosto Bu-é, mas Bu-é do leite de canela e limão Hacendado.
Desgosto também particularmente do género de recanto cibernáutico (um blog, quiçá) que consiste em que se poste, insistente e - se possível - diariamente, pedaços puros de depressão, que, aparte estarem dactilografados - modernidade tantas vezes deixada ao desgoverno das mãos mais incautas, se apresentam do modo mais primitivo em que esta se pode exibir. Alguns exemplos: "Estou triste", "Estou perdido/a", "Não sei o que fazer da minha vida", "Foda-se", "Sinto-me cada vez pior", "Vou chorar". Deprimente. Ainda sou do tempo em que se deprimia na cama, em posição fetal; depois chegava a governanta do útero - a mãe, por assim dizer - e dizia: "CARALHO, outra vez a dormir?"; a seguir, para tornar tudo pior, ligava o aspirador. Uma situação que, transportada para a modernidade, ou melhor, para a Pós-Modernidade, equivale a estar-se absolutamente deprimido e, navegando pela web, dar de trombas com um excerto de Bernardo Soares, o Pai, a que não se resiste postar. Receio poder assim afirmar-se estarmos perante uma patologia bloguística, e fantasio com o dia em que, em cima de um palco, ostentando um t-shirt que diz "Fernandinho, vá ás putas, não me chateie" possa defender uma tese em que se estabelece uma relação de directa proporcionalidade entre a sintomática, exacerbada exibição de traços levianos de depressão e os níveis de pretensão à cena artística. Alguns exemplos de perturbações/patologias/situações patológicas altamente artísticas: a tal da depressão; bipolaridade, esquizofrenia, epilepsia daquela igual à do Ian Curtis, pulsos com atracção crónica por metais e objectivas, goela com atracção crónica por fármacos, ataques de pânico, claustrofobia, insónia, aquela doença em que crescem às pessoas tiras de fita-cola cruzadas sobre os lábios, anorexia da nervosa e, de um certo ponto de vista, a sífilis, muita em voga na cena artística parisiense do século XIX (ver rodapé do blog) é coisa para dar aso a umas cenas de performance corporal altamente artísticas. Se quiserem, sugiro-vos dois ou três sítios altamente artísticos a este nível em Lisboa, como o Viking, no Cais do Sodré, de onde, da última vez que lá estive, um amigo meu saiu com "Sida na boca", depois de um - digamos - belo "streep".
A minha profe da primária, que sempre foi uma grande vaca, ensinou-me que Nunca digas nunca. Apoiada na memória deste ensinamento e na crença - demasiadas vezes, evidência - de que Pode sempre ficar pior, não jurarei a pés juntos que este recanto jamais virá a padecer dessa patologia artístico-bloguística.
Se padecesse, postaria este vídeo, seguido do argumento:
Outros tipos de patologias bloguísticas: A minha.
Programar um vídeo e acabar com 30 linhas de chouriço enchido.

8 COMENTÁRIO(S):

Jamil S.P. at: Saturday, 25 September, 2010 said...

Adorei seu texto!

sem-se-ver at: Saturday, 25 September, 2010 said...

este video fez-me mal.

Camille La Fille at: Saturday, 25 September, 2010 said...

Obrigada, Jamil.

Não me digas que te pôs deprimido, sem-se-ver.

sem-se-ver at: Saturday, 25 September, 2010 said...

angustiadA, camille. triste, essencialmente.



(olá)

Anonymous at: Tuesday, 28 September, 2010 said...

muito moderno: enquadra-se no estilo politica actual cá do nosso cantinho pequenino, que se vende com os desastres das outras cores... e viva o samba e o pagódjinho do braziu, viu?! alegria e show djibola...

a avaliar pelos "comments" já adquiridos já temos a roçinha e seus boiadeiros em peso a apoiar

senhorita valdez at: Friday, 01 October, 2010 said...

este post deixou-me de lágrima no olho.*

Camille La Fille at: Friday, 01 October, 2010 said...

Sem-Se-Ver: ora, tal como defendi, já aqui reúno mais uma ou duas boas razões para, em condições normais, não postar vídeos deste género. No entanto, não deixa de ser um belo vídeo.

Anónimo: samba, pagódjinho, show dji bola não fazem propriamente o meu género. Se reparar, o que disse foi que não há necessidade de impingir aos outros a sua tristeza sob as formas mais básicas possíveis. Explicitei, inclusivé, e seguida, alguns exemplos.

Senhorita Valdez: terias de ser mais específica. Não sei se a tua reacção virá na sequência do vídeo, que acredito que perturbe muito boas almas; se da minha eventual rispidez, que volta e meia, ainda que sem esse propósito tende a provocar certos e determinados estragos.

Camille La Fille at: Friday, 01 October, 2010 said...

AH.
Olá, Sem-Se-Ver.
;)

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OS VOYEURS.