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« Nem o raio de uma única pessoa, de entre todos os colunistas e críticos de 4ª categoria, tinham alguma vez visto nele aquilo que realmente era. Um poeta, c’um caraças! E estou a dizer poeta. Mesmo que não tenho escrito uma linha de poesia, era capaz de nos comunicar o que sentia só com o mexer das orelhas, se ele quisesse. » 

J.D. Salinger
em Carpinteiros, levantai alto o pau de fileira (Ed. Difel)

Autumn is Coming.



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– Não sei o que havemos de fazer hoje à tarde – exclamou Daisy –, nem amanhã, nem nos próximos trinta anos!
– Não sejas mórbida – disse Jordan. – A vida recomeça no Outono, quando o ar refresca.

The Great Gatsby
F.S. Fitzgerald

Deixem-me dormir, se faz favor.



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- Ben Clark: Não é este o paraíso prometido
E, não obstante, quem se apercebeu disso?
- Charles Bukowski: The problem with the world is that the intelligent people are full of doubts while the stupid ones are full of confidence.
- António Ramos Pereira:
Não me trancaram em nenhum sótão tendo eu treze anos, fui eu quem trancou o mundo no exíguo espaço que resta fora desta divisão

Belo programa, meu bom senhor.



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Excelentíssima madame, eis que primeiro vou descrever o seu esplendoroso vestido e logo a seguir, sim, a despirei com toda a ansiedade possível.
Belo programa, meu bom senhor. Mas essa primeira parte, não poderá saltar-se?
Excelentíssima madame, eu sou um escritor, não sou um fornicador.
Oh, meu bom senhor, que pena.

Gonçalo M. Tavares
Flaubert
Biblioteca, Campo das Letras (2004)

Conto Público.



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Conto Público


#1
Dois lutadores de sumo. Treinaram vinte anos. O seu peso enorme, os rosto ameaçadoramente contidos. Imóveis, os dois corpos. Prontos para a acção.
Gonçalo M. Tavares

#2
Cada um visava o outro antecipando na sua mente cada movimento, Olhos nos olhos, o combate psicológico começara semanas antes, quando o de porte menos imperial desafiara o campeão dos campeões.
Kimatuto encarou o adversário como um tigre encara a sua presa. Na sua mente surgiam imagens de outros combates. Ainda não era hoje que o seu percurso de invencibilidade iria terminar. Era e continuaria a ser o rei do tapete.
António Ruivo, Leiria

#3
Continuaria a ser o rei do tapete. Repetia incessantemente para si mesmo. Continuaria a ser o rei do tapete. Repetia. Continuaria a ser o rei do tapete. E, contudo, nem um músculo se mexia. Continuaria a ser o rei do tapete mesmo apesar de o forte embate que sofreu do seu adversário quase o ter atirado para fora. Continuaria a ser o rei do tapete mas precisava mesmo de reagir porque o corpo insistia em não se mexer. Era a primeira vez que tal lhe acontecia. Era a primeira vez que lutava desde a morte daquele estranho na sua rua. Onde não reagira. Quando o devia ter feito.
João Tibério, Queluz

#4
A multidão vociferava ao longe o eco de uma multidão. Na sua cabeça a imagem do homem a esvair-se em sangue enquanto tentava dizer-lhe alguma coisa que não conseguia entender. Aproximara o ouvido aos seus lábios ensanguentados mas a única coisa que conseguira perceber era algo parecido com "procurem o dezanove". Não decifrara de imediato. Só no escuro da noite, dando voltas na cama na tentativa de dormir, conseguira juntar os sons silabados, omissos, até obter aquele estranho apelo. E igualmente o apelo dos seus olhos, numa névoa a esconder um último brilho antes de se apagar. Morrera nos seus braços e compreendera a suave doçura dum corpo acabado de morrer. Uma imperceptível desistência.
Paulo Gonçalves, Porto

#5
O momento do nascimento e o momento da morte. Dois momentos de ruptura que se ligam e nos ligam definitivamente. Ele morrera nos seus braços e por isso agora passaria a fazer parte de si. Como um filho. Tentara deixar de pensar nisso mas não conseguia. Sentia-se agora responsável por ele. Irremediavelmente. E não desistiria enquanto não descobrisse o que era "o dezanove". Mesmo que se lhe esgotassem os únicos momentos de descanso de que usufruía, que eram os que passava à noite, na verdade já de madrugada, junto da única pessoa que partilhava com ele o calor da sua existência.
Céu Guitart, Azeitão

#6
Esta fracção de pensamento quebrou-se quando subitamente sentiu as mãos do adversário no mawashi e os pés a flutuar. O sal que espalhou pelo dohyō, os cânticos do gyōji, o espaço circular violentamente contido que resumia a sua existência física e espiritual há 20 anos, repetiu nessa noite com a intensidade consciente de algo que se faz pela última e derradeira vez. Com as pregas profundas da sua obesidade comprimidas às do opositor, sentiu-se levar violentamente para fora do recinto sagrado. Caiu humilhado, e sem levantar a cabeça pensou: "Acabou. E agora?...", e um número voltou-lhe à memória... "dezanove"
Guilherme Vaz, Porto

#7
Na sua boca, sentia o amargo da derrota. Todos os feitos anteriores seriam rapidamente esquecidos. A fama, efémera, não passaria de uma ténue recordação de um passado glorioso. Um braço repousou sobre o seu ombro. Olhou para trás e viu uma figura familiar. Franzino, um homem de dentes desalinhados, amarelecidos pela sucessão de cigarros que aspirava durante o dia, sussurrou-lhe: "Estou contigo. Não cairás sozinho." O seu primeiro treinador, o homem que apesar da sua pobreza o retirou de um orfanato e acreditou nas suas potencialidades era, para ele, mais que um pai. Fora o principal responsável pela sua ascensão meteórica. No auge, foi renegado por ordens do agente que lhe prometeu fama e fortuna. Pashi saiu do anonimato da multidão para restaurar uma amizade perdida, um perdão concentrado num gesto. Kuamu, o promotor do combate, conversava com o árbritro. Secretamente, entregou-lhe um envelope, sem remetente ou destinatário, apenas dois algarismos: 1 e 9.
Manuel Lopes, Lisboa 

#8
Shinozuka atravessava a cidade, atribulada e feérica como sempre. Não parara sequer para uma refeição rápida, tinha urgência em chegar a casa. Um nervoso miudinho percorria o seu corpo magro e endurecido por anos de disciplina e rigor. Tinha urgência em chegar a casa. No bolso do casaco aquele envelope subtilmente entregue por Kuamu fervia de inquietação e destilava mistério. Depois do combate, das cerimónias e dos discursos, ainda se sentiu tentado a abri-lo e a acabar com a curiosidade que o consumia. Conteve-se. Entrava em casa e, sem cumprimentar a mulher, fechou-se no seu pequeno e despojado escritório. Quando abriu o envelope, a surpresa não se dissipou: um bilhete de avião, para o dia seguinte. O destino ficava a 19.000 Km de distância.
Ricardo Moura Pais, Arraiolos

#9
Um amargo de boca. Como justificar a partida apressada, a bagagem arrumada à pressa, a ansiedade latente. Ao mesmo tempo uma vontade indócil de perceber. As quase 27 horas de distância, as escalas na Europa, as esperas e as dúvidas, tinham um destino. Como pronunciar esta palavra tão estranha, já incrustada no seu pensamento: Flo-ria-nó-polis.
Ricardo Moura Pais, Arraiolos

#10
"Tudo diferente", pensava Shinozuka. O tempo quente e húmido era o que restava do mundo de onde viera há 27 horas e onde havia estado todas as outras horas antes dessas. Conseguira justificar a sua ausência com um convite de última hora para arbitrar um torneio internacional. E ali estava, num país que não conhecia para entregar um envelope a um homem que nunca vira: Aito Sato. Dele apenas sabia que foi um dos kyodai de uma importante família Yakuza, entretanto desaparecido. Recebera a carta de Kuamu que apenas lhe disse: "Depois disto a tua dívida está paga". Sato, Kuamu e ele. Todos intermediários. Operários de uma linha de produção, responsáveis por apertar um parafuso de uma peça que nunca viriam a conhecer. A inquietação voltou. Num impulso abriu o envelope. Nele encontrou duas coisas: uma carta onde se podia ler "Obrigado" e uma chave com uma placa e um número, 19.
Nuno Grosso, Lisboa

#11
Entretanto resolveu parar para pensar. Esta história parecia-lhe muito mal contada e demasiado rocambolesca para quem passa a vida a correr atrás do normal. O número 19 sempre tinha sido o seu favorito, mas jamais imaginaria ter de percorrer meio mundo à procura de algo que cada vez lhe parecia mais irreal... Parecia-lhe que estava na história errada. Se calhar era tudo um lapso e a ele apenas competia provar que estava a meio de um engano. Por que razão iria atrás de um número apenas porque alguém recusa aceitar que, por vezes, o inevitável é mesmo inevitável? Ele sempre fora uma pessoa demasiado pragmática para perder tempo com ilusões...
Ally Fontana, Lisboa

#12
Shinozuka aproximou-se do balcão da recepção. "Ligue-me ao quarto 19". Um momento de espera, percorrendo todas as vozes da sua vida, todas aquelas que poderiam estar do outro lado da linha. "Sim?" Um momento de espera. "Sou eu..." Um momento de espera. "Vou descer. Encontro-te no bar do hotel". Desligou. Pediu uma bebida no bar e sentou-se. Olhou à sua volta, tudo lhe parecia estranho. Nunca poderia ter imaginado que acabaria sentado no bar de um hotel à espera de uma pessoa. O número dezanove desenhou-se na sua mente e aí permaneceu até desvanecer com um toque no ombro, a sombra de alguém atrás de si. Virou-se.
António Barbosa, Covilhã 

#13
O toque no ombro foi leve, sem tensões, amigável. Uma mulher? Linda, traços nitidamente japoneses. Cabelos negros e compridos, maravilhosamente lisos e brilhantes.
– Ohayou Gozaimasu, cantou a bela.
Shinozuka não reagiu: a boca aberta, secou-lhe. Ela sentou-se à sua frente e fez de seguida um sinal para o rapaz atrás do balcão do bar. Pediu num português perfeito: um sumo de maracujá. Shinozuka continuava mudo.
– Outro para o meu amigo.
Em cima da mesa, a bela pousou a sua bolsa pequena e a chave com um pesado porta-chaves em madeira exibindo o número 19.
Maria do Céu Mota, Santa Maria da Feria

#14
Enquanto esperava pela bebida, ela permaneceu silenciosa. Avaliou-o com o olhar, mas a sua expressão não traiu minimamente os seus pensamentos. Shinozuka começou a sentir-se desconfortável, sem saber se devia fingir-se distraído ou se devia olhá-la também nos olhos... nunca tivera muito jeito para esses jogos. Finalmente, para seu alívio, o empregado trouxe a bebida. Ela pegou no copo... voltou a pousá-lo com impaciência e, chegando-se à frente, disse-lhe baixinho, com voz ríspida:
– 35? Eu sou a 19, entrega-me a encomenda.
Ana Borges, Torres Vedras

#15
Shinozuka endireitou-se na cadeira. A roupa pesava-lhe e uma sensação de mal-estar tomava conta de si. Considerara adequado vestir o seu melhor fato para este encontro - afinal, não sabia o que ira encontrar.
No entanto, o calor daquela cidade atrasava-lhe a respiração, tornava-a mais pesada, e sentia-se cada vez mais fraco. Olhou o tecto, observou atentamente a ventoinha que, por cima de si, rodava as suas pás. No entanto, era como se todo o ar se tivesse ido.
Ohayou observava-o expectante, franzindo ligeiramente o sobrolho. Reiterou:
- Entrega-me a encomenda.
Shinozuka levou a mãe ao bolso interior do casaco, observou a bela mulher sentada à sua frente e estendeu-lhe o envelope.
Joana Loureiro, Lisboa

#16
Aguardo esta carta há tanto tempo! Dela depende o meu futuro e o de toda a minha família.
Pegou lentamente no copo e sorveu o sumo até à última gota. Fitou Shinozuka por alguns segundos e começou a ler a carta. Shinozuka reclinou-se na cadeira e, por delicadeza, fechou os olhos.
Um estampido breve e seco ecoou. Ohayou, deitada sobre o lado direito, jazia no chão do hotel. Um fio de sangue lento, espesso, corria pelo mármore branco da recepção.
José António Quelhas Lima, São Mamede de Infesta

#17
O metal dos olhos de Shinozuka diluiu-se na enchente descontrolada que lhe afogou as janelas da alma. O cérebro ordenava, mas a voz não queria embalar aquele sofrimento que corria, e de repente, invísivel, tomava já conta de tudo. O peito de Ohayou, quedo, prenunciava que nunca mais um sorriso de anjo encantaria ou faria qualquer outra coisa na forma como os minutos corriam naquele local.
Um gato esquelético cruzou a esquina daquele corredor, entrou na sala, e deitou-se junto ao corpo recém-partido. Parecia suspirar pela concretização de uma premonição. Ao lado, o corpo sorria, muito brevemente, mas só isso. Estava morto.
Shinozuka continuava mudo. Ao longe ouvia-se uma rouca sirene da polícia, que gritava já no preciso momento em que começou a chover. Nada havia para dizer a ninguém. Um homem louco, um animal indiferente, e coisas por explicar, dariam trabalho a quem quisesse perceber a sequência dos acontecimentos.
Pedro Candeias, Lisboa 

#18
O sopro da sirene está mais próximo. De súbito, Shinozuka, que ficara em 10 segundos sem mover um músculo, sentiu-se expandir numa apanha de ar aparatosa.
O choque parecia multiplicar-se pelo número de gotas da tempestade que se abatia lá fora. Ainda assim Shinozuka está consciente e disperso. O som das sirenes cessou. Em seu lugar surge um flash intermitente, silencioso: azul e vermelho. A sala de luz morna é agora vermelha.
Shinozuka é esbofeteado um par de vezes pelas ofuscantes luzes, fita o balcão vermelho, a chave 19 e a bolsa de Ohayou, azul pega na carteira, vermelho sai pelas traseiras. Pálido e perdido desata a bolsa, lá dentro um leitor de música e um bilhete para 35.000 km de distância. Junto à janela.
Filipe Corrugado, Porto

#19
"35", repetia incessantemente enquanto o seu passo apressado e o seu volumoso corpo se evidenciavam cada vez mais no olhar dos que o viam passar.
No seu caminhar determinado não se desenhava a certeza de um destino. Fugia e como um animal ferido procurava apenas uma solidão onde pudesse reconstruir uma ordem, um sentido do que lhe parecia ser cada vez mais enigmático.
"35", fora assim que Ohayou o interpelera. Lembrava-se agora do leitor de música da bela Ohayou e levou a mão ao bolso do seu casaco para se certificar de que o levava com ele.
Num acto súbito entrou numa velha pensão e pronunciou uma só palavra quando com largo sorriso um velho homem em camisa de alças lhe dava as boas-vindas e se dispunha à conversação. "Room", disse Shinozuka, olhando para a parede desmaiada onde estavam as chaves dos quartos.
Pedro Marques, Paris

#20
Abandonou o corpo à cama, ressumando exaustão e desespero corrosivo. Percorreu o tecto com o olhar vago, perdido na memória dos últimos acontecimentos, acabando por cerrar os olhos, acossados pela ausência de horas de sono, esgotados de nada vislumbrar. O cansaço era, sem dúvida, seu adversário e não favorecera o desempenho da memória. Ainda assim, tentou, em hercúleo empenho, ligar pormenores que o conduzissem à decifração do complexo enigma. Ansiava representar, novamente, o papel de árbitro activo e competente, como nunca o deixara de ser em todos os dohyō, de outros combates. Mas esta era uma luta pouco objectiva, revestida de inúmeras sinuosidades, progressivamente obscura e intrincada.
"Para além do inverosímil existe, certamente, uma explicação", pensou em jeito de próprio encorajamento. É interrompido nos seus pensamentos pelo som grave do telefone. Do outro lado, uma voz masculina faz cair, pausadamente, uma nova imposição.
Maria do Rosário Colaço, Lisboa

#21
Demasiado cansado para reagir, Shinozuka escuta a voz séria e metálica que se faz ouvir do outro lado do telefone. À medida que as palavras se soltam, em tom incisivo e peremptório, sente-se invadido por um temor e uma sensação de mal-estar percorre todo o seu corpo e mente.
O som estridente que, segundos antes, o despertara dos pensamentos mais profundos e o enervara sobejamente, cedeu lugar àquela voz, sem rosto, anónima e que lhe provocava um calafrio inexplicável.
Do outro lado, a voz masculina ordena-lhe, friamente, a devolução imediata do leitor de música da bela Ohayou, que trouxera consigo na fuga desesperada que encetara minutos antes.
Como podia a voz saber que guardara o objecto pessoal de Ohayou?, questionava-se entre um misto de surpresa e receio. Quem era aquela gente que parecia saber todos os seus movimentos? O que fazer? Como conseguir escapar aos olhos invisíveis...
Luz Câmara, Coimbra 

#22
Como conseguir escapar desta teia? Como se deixou transformar nesta marioneta completamente manipulada?
Sai à rua. Sente-se espiado em todos os seus movimentos. Olha freneticamente para trás, para os lados, para trás, olha nos olhos de quem passa como se todos estivessem envolvidos, procurando também um sinal... sem saber de quê!
Desesperado e exausto deixa-se cair ao virar de uma esquina, como se ali ficasse invisível do resto do mundo. Lembra-se da sua bela mulher, precisava do seu olhar que o acalmava e lhe dava ao mesmo tempo toda a tranquilidade e força do mundo, do seu abraço apertado mas terno, de sentir o seu cheiro doce e o calor do seu corpo, do seu beijo... Onde estaria ela, que estaria a fazer?
Brutalmente arrancado aos seus pensamentos e ao chão, foi empurrado para dentro de uma carrinha fechada que se pôs de imediato em movimento: "ONDE ESTÁ O LEITOR DA OHAYOU?!"
Raul Galveia, Coruche

#23
O seu coração palpitava e agitava-se no seu peito num batimento descompassado, a sua cabeça latejava e o seu corpo debatia-se por uma posição reconfortante. Mas tudo se assemelhava a estar bem longe de ser reconfortante: a carrinha tinha um cheiro insuportável a enxofre, as cordas que lhe amarravam os tornozelos estavam demasiado apertadas e estar vendado impossibilitava-lhe avaliar fosse o que fosse. Já passara uma hora desde o seu infortúnio. As perguntas ressaltavam-lhe na cabeça imparavelmente; estava num estado irremediável de incompreensão - parecia-lhe um grande puzzle no qual não conseguia juntar as peças. A sua linha de pensamento foi interrompida por um brusco abanão da carrinha. Teriam parado?
Joana Vaz, Sintra

#24
Ouvido atento, músculos retesados, expectante. Sim, tinham parado. A porta da carrinha é aberta e o cheiro a enxofre mistura-se com o odor adocidado do campo, um cheiro a terra húmida, a terra lavada pela chuva que tinha caído. Onde estaria? Sente que lhe retiram a venda. Abre os olhos numa mistura de luz e sombra. Olha à volta o descampado. Não havia ninguém, tudo era silêncio. As cordas, à volta dos tornozelos, pareciam cada vez mais e mais apertadas. E os pés deixaram de existir. O seu corpo é uma amálgama de dor. A cabeça rodopia numa tontura, numa interrogação. O que tinha acontecido? Quem tinha matado Ohayou? Porquê? Quem era ela, afinal? Um murro enorme atinge-o em pleno rosto. E outro, e outro ainda. E o sangue, devagar, escorre por entre a pele lívida de espanto. Uma voz rouca, soturna, pergunta:
- Quem és? Diz, quem és tu? Por que mataste Ohayou?
Respira...
Maria Teresa de Jesus dos Santos, Massamá

#25
De súbito, o homem parou; levou a mão direita ao bolso - uma carta. Entregou-a a Shinozuka. Uma carta fechada. Shinozuka tinha medo, mas mesmo assim estava curioso. Uma luta rápida: curiosidade/medo. Ganhou a curiosidade. Mas isto foi na sua cabeça, cá fora ele não se mexeu. Esperava uma indicação concreta para abrir a carta - ou um soco. Não veio soco.
Gonçalo M. Tavares 

#26
No branco imaculado da carta, uma pinga do seu sangue. Do sangue que derramara nem ele sabia porquê. O lugar e a altura não eram as propícias a um raciocínio desanuviado. E os tambores que escutava na sua cabeça, que a enchiam num ritmo sonoro ensurdecedor, também não ajudavam. Na sua mão uma carta. Que carta era aquela? Que poderia ela desvendar? Repousaria no seu conteúdo a causa de tamanha violência? Os seus dedos dormentes tentaram abri-la, mas nem isso. Sentia-se desfalecer. Não veio "selo". Veio só a carta. Esta carta. Seria ela um soco no estômago?
Miguel Santos Teixeira, Oeiras

#27
O despertar fora lento e doloroso. Deu instruções ao seu corpo dormente para se erguer, mas este recusava-se a obedecer. Olhou em volta. Estava deitado no chão do que parecia ser uma casa abandonada. As janelas estavam parcialmente destruídas e os tentáculos da natureza ameaçavam as indefesas paredes. As falhas no telhado pareciam feridas abertas pelos raios de sol que teimavam em iluminar um pedaço de papel perto do seu corpo. Lentamente as recordações regressavam à superfície. A carta. A revelação estava ao alcance da sua mão.
Vitor Costa, Famalicão

#28
Estranhamente a casa abandonada tornou-se acolhedora, um refúgio. Arrastou-se para um canto lentamente, dolorosamente. Encostado à parede ergueu os joelhos e rodeou-os com os braços, a carta ainda na mão, já ligeiramente amarrotada. Abriu-a. Lá dentro uma palavra: Felicidades. Fixou os caracteres elegantes - femininos? - uma e outra e outra vez. A barriga enorme começou a tremer, depois o resto do corpo. A boca de Shinokuza abriu-se e a sua garganta lançou um grito transformado numa gargalhada enquanto o papel branco caía amarfanhado no chão.
Estou livre - pensou.
Isabel Brinca, Faro

#29
Não conseguiu controlar as lágrimas. Pegou no papel e releu a mensagem de novo. Suspirou num misto de resignação e de alívio. A palavra ainda continuava lá, mas agora já não parecia tão reconfortante. A sensação de liberdade depressa cedeu lugar a uma vaga de confusão. Continuava a chorar e as suas mãos recusavam-se a largar o papel amarrotado e salpicado de água. Pensou na ironia do destino. Estava a afogar a ordem de libertação nas suas próprias lágrimas. De repente ouviu o som de passos. Levantou-se num ímpeto e afastou-se para um canto. A cadência era cada vez mais curta e audível. Viu uma sombra recortada pelo sol junto à porta. Engoliu em seco e aguardou.
Vitor Costa, Famalicão

#30
Ouviu a porta abrir-se. O som das dobradiças enferrujadas e o ranger do movimento ecoaram pelo espaço. A luz do exterior banhou a entrada recortando figuras por entre os móveis semi-desfeitos, filtrada pelo pó de anos de abandono. Contra luz viu um homem alto, magro. O estranho ficou à porta piscando os olhos para se habituar à escuridão. Ou seria surpresa por o encontrar ali? Dificilmente se poderia esperar encontrar um lutador de sumo numa casa perdida no sul do Brasil! Perguntou-lhe quem era e o que fazia ali num japonês perfeito, mas com algum sotaque. Devolveu-lhe a pergunta e aguardou. O estranho sorriu, entrou na sala, limpou o tampo de uma cadeira e sentou-se. Em seguida retirou do bolso interior do seu casaco uma garrafinha de metal e bebeu um golo. Depois esticou o braço e ofereceu-lha. Inicialmente, olhou-a, desconfiado, mas depois aceitou a oferta do estranho. Foi então...
Patrícia Loureiro, Lisboa

#31
…que o reconheceu. O impacto da revelação fora brutal e demorou alguns segundos a recompor-se. Esfregou os olhos, incrédulo e desconfiado. Não pode ser, pensou. Aproximou-se e observou-o. Aquele rosto aquilino, os olhos em forma de amêndoa, o nariz pontiagudo e o mesmo olhar vigilante e indecifrável de sempre. Um nome formou-se na sua mente. Sakamura. Outrora fora o seu melhor amigo até ao dia em que conheceram a mulher que destruiria o juramento feito desde a infância. A amizade cedera lugar à mentira, ao ciúme e à traição. Começava agora a encaixar as peças para completar o puzzle do seu rapto. Tudo fazia sentido. A carta, a estranha mensagem, a morte de Ohayou. Estremeceu perante este último pensamento. O seu olhar fulminante apontou para o culpado. Estava frente a frente com o assassino de Ohayou.
Vitor Costa, Famalicão 

#32
Sakamura disse: em tempos traíste. Nunca soube porquê. Mas não esqueci. Vais ser incriminado por um assassinato que não cometeste. E ficarás sem entender muito do que te aconteceu. Esta será a minha segunda vingança. A melhor delas, até. Depois, voltaremos a ser amigos, sem dúvida.
Até breve.
Gonçalo M. Tavares

Fraca Carta de Amor.



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Algum dia eu haveria de entrar na normalidade dos que te amam. Amo-te. E dói escrevê-lo (que é pior, meu amor, do que dizê-lo). Amo-te, absoluta, impossível e fatalmente. E ouço, adolescente, uma música adolescente, para me lembrar de ti, porque lembrar-me de ti é lembrar-me que não consigo esquecer-te.
E ouço música porque ouvimos música quando amamos, e tudo, no amor, é música, acústica da alma que se quer ser devorada, e, neste caso, dor (tão deliciosamente insuportável) de amar sem sequência nem expectativa de contrapartida, amar unicamente o puro objecto que desgraçadamente amamos.

Isto é uma carta de amor, e é possivelmente ridícula (prova maior de que é, realmente uma carta de amor), ou porque perdi o hábito de as escrever, ou porque nunca tive a coragem de as enviar. Não percebes porque é que não te falo? Ainda não percebes que, na personagem que de mim eu enceno, não cabe a ameaça de uma derrota, a antecipação do desencanto, a sombra de um vexame? Não te falo, para não saber que o que eu te digo é apenas a forma contida de te dizer outra coisa, mas que essa coisa não é do teu mundo, nem do mundo que eu construí, nem do precário mundo que a nossa fragilíssima ternura mútua arquitectou. E tudo isto é literário, eu sei, mas – que queres? -, a literatura é o melhor de mim e é o melhor de mim que vive dentro da minha cabeça quando estou contigo.

E depois, afastamo-nos. Beijo-te a correr, não sei se já reparaste, e quase fujo, porque sair do pé de ti é regressar ao que não és tu, o teu olhar e as tuas mãos, a tua alma e a tua voz, e isso, meu amor, transformou-se no insuportável intervalo entre dois encontros. Esta carta de amor é um excesso (e isso prova superiormente que é uma carta de amor): eu amo não a ideia de amar-te (durante muito tempo, eu julguei que era apenas isso), mas a ideia de perder-me no meu amor por ti. E mesmo amar-te é um excesso, porque tudo aconselharia que eu me limitasse a mitificar-te, que é a melhor forma de evitarmos enfrentar a realidade. Porque a realidade, aqui, é como uma dor difusa, tu sabes como é, um incómodo ainda não localizado, que progressivamente se vai definindo e acertando, até que, insuportavelmente nítida, a sua imagem se nos impõe como uma evidência. A minha dor é que eu comecei a amar-te, sem o saber, durante aquele breve período de tempo em que sair de casa era a promessa reconfortante de ver-te e falar contigo. Eu não sabia, repito, mas o tempo ajudou-me a definir essa pequena dor, tão secretamente pavorosa: cada vez que estou contigo (cada vez mais, meu amor, cada vez mais) é como se a minha vida se virasse do avesso. E é verdade, é cada vez mais verdade, que, quando penso nas coisas que ainda me falta fazer na vida, é em ti que penso. E tenho medo, como um animal que instintivamente foge do que sabe não poder atingir.

Eu penso em ti, ainda mais do que te digo, e tu estás em tudo, mesmo quando não te penso, tu és a grande razão, o horizonte sem nome que constantemente se desenha na minha imaginação de mim. Há uns anos, este seria o momento de desmontar o discurso desta carta, de te mostrar os subtis mecanismos da alma e da máscara, de desdizer ironicamente o que já disse, de insinuar que, afinal, as-coisas-talvez-não-sejam exactamente-assim. Mas as coisas são exactamente assim, e a carta, que poderia transformar-se num confortável exercício paródico, é, inevitavelmente, uma agonia e um embaraço. Esta carta é um acto de puro egoísmo, que eu até talvez nem tivesse o direito de praticar. 

É-te incómoda, necessariamente, e isso bastaria para que eu me abstivesse de a enviar, dentro de um envelope azul. Mas o azul fica-te tão bem, e as cores todas ficam em ti como tu ficas no mundo: exactamente.







 



António Mega Ferreira  
Amor
Assírio & Alvim

Madame Bovary #6



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( Dedicatória )

Eu, a Ana e o JP
dedicamos esta música à Madame.




Madame Bovary #5



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( TOMO A LIBERDADE DE VER EMMA BOVARY EM CADA UMA: Anna, Viola and Özlem for Marie Claire Turkey November 2010. Shot by Ayten Alpun. Styling by Hakan Öztürk. )





" The trio wears a monochromatic wardrobe of sweeping 
gowns and feminine lace in a story fueled by sin and regrets.





" A splendid combination of mystery, seduction and drama."

Madame Bovary # 4



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(Passagem)

(Pós-Emma Bovary ; «Emma olhou lentamente em redor, como quem desperta de um sonho. Depois, com a voz límpida, pediu um espelho. Permaneceu inclinada sobre ele largo tempo até que dos olhos lhe caíram duas grossas lágrimas. Inclinou até trás a cabeça, largando um largo suspiro, e, uma violenta convulsão fê-la cair de novo sobre o leito. Todos se aproximaram. Estava morta»)

La Mort de Madame Bovary, 1889, Albert Fourié



Por respeito, ou por uma espécie de sensualidade que o obrigava a proceder com lentidão as suas investigações, Carlos não tinha aberto ainda a gaveta secreta da escrivaninha na qual Emma guardava as suas coisas. Um dia, por fim, sentou-se diante dela, fez girar a chave e apertou a mola. Lá estavam todas as cartas de Rodolfo e de Léon. Devorou-as até à última. Revolveu todos os cantos, todos os móveis, todos os caixotes, atrás das paredes, soluçando, rangendo, transtornado, louco... Descobriu uma caixa que desfundou com um pontapé. O retrato de Rodolfo saltou à vista no meio de ternas cartas espalhadas.
( ...)

O abatimento de Carlos produzia assombro. Já não saía e não recebia ninguém, negando-se inclusivé a visitar os pacientes. Então disse-se que se fechava para beber.
Nas tardes de verão, pegava na filha e levava-a ao cemitério. Voltavam ao cair da noite, quando já não havia mais luz senão na praça central.
Às vezes, um curioso trepava a cerca do jardim e ficava estarrecido com aquele homem de longa barba, coberto de farrapos, intratável, que chorava ao caminhar.

(...)

Um dia, Carlos dirigiu-se ao jardim e  foi sentar-se no banco da pérgula. A luz passava através da gelosia; as folhas do parreiral desenhavam sombras sobre a brita; os jasmins embalsamavam o ambiente; o céu estava azul, e as cantáridas zumbiam em torno dos lírios em flor. E Carlos, como um adolescente, sufocava sob as vagas exalações amorosas que enchiam um penoso coração.
Às sete, a pequena Berta, que não o havia visto durante toda a tarde, veio em sua busca para o jantar.
Tinha a cabeça apoiada contra a parede, os olhos fechados, a boca aberta e, nas mãos, uma larga madeixa de cabelos negros. 
- Papá, vamos! - disse a menina. O pai não se mexeu.
E, crendo que tentava brincar, empurrou-o suavemente. Carlos caiu sobre terra. Estava morto.
Trinta e seis horas depois foi feita a autópsia. Não se lhe encontrou nada.
Uma vez vendido tudo, sobraram doze francos e setenta e cinco cêntimos que serviram para pagar a viagem da menina até casa da avó, que morreu nesse mesmo ano, e, como o avô Rouault estava paralítico, encarregou-se do trato da menina uma tia-avó, a qual, sendo pobre, a mandou para uma fábrica de fiação a ganhar a vida.

FIM.



É.



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« Seríamos piores do que somos sem os bons livros que lemos. »
Vargas Llosa, durante o discurso de entrega do Nobel, na Academia de Estocolmo.

Madame Bovary # 3



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( Passagem )

Às vezes, ocorriam-lhe ideias estranhas:
- Quando baterem as doze - dizia-lhe - pensa em mim.
E se acaso confessava que não tinha pensado nela, desfazia-se em lamentos que  irremediavelmente terminavam com as eternas perguntas:
- Amas-me?
- Claro que sim!
- Muito?
- Muito.
- Nunca amaste nenhuma outra?
- ...Crês que era virgem quando me encontraste? - exclamava Rodolfo rindo. 
Emma começava a chorar e Rodolfo esforçava-se por consolá-la, alternando com  piadas os seus juramentos amorosos.
- Oh! É que amo-te - proseguia ela - Amo-te tanto que não poderia viver sem ti! Entendes? Às vezes, quando todas as fúrias de amor me afligem, tenho desejos de ver-te. Pergunto-me: "Onde estará? Quiçá com outras mulheres. Sorrir-lhes-á ao aproximar-se." Mas não, nenhuma te agrada, verdade? Há-as mais bonitas, mas eu sei amar melhor! Sou a tua escrava, a tua manceba! És o meu rei! O meu ídolo! És bom! És formoso! És inteligente! És forte! 
Tinha ouvido tantas vezes aquelas palavras que lhe pareciam carecer de originalidade. Emma parecia-se com todas as amantes. O encanto do que é novo, resvalando pouco a pouco como um vestido, deixava ao desnudo a eterna monotonia da paixão, que apresenta sempre as mesmas formas e linguagem. Aquele homem tão prático não acertava em distinguir a desigualdade de sentimentos submetidos a uma mesma linguagem. Porque uns lábios libertinos ou vendidos lhe haviam murmurado frases por mero estilismo, não acreditava, senão muito debilmente, no candor das palavras de Emma. Há que recusar - pensava - as frase exageradas que encobrem pensamentos medíocres.
Como se a plenitude da alma não se desdobrasse algumas vezes nas metáforas mais vãs, porque ninguém pode dar a exacta medida das suas necessidades, das duas ideias nem das suas dores pela palavra humana.  Mas com esta superioridade de crítica própria de quem se mostra privado de toda a classe de relações, Rodolfo encontrou naquele amor outros gozos que explorar. Julgou incómodo todo o pudor e começou a tratá-la sem cortesias, acabando por corrompê-la. Era uma amor idiota que privilegiava Rodolfo em admiração e enchia Emma de voluptuosidade  e arrebatamento. A sua alma submergia naquela embriaguez, afogando-se, como o Duque de Clarence no seu tonel de mostro. 
Em consequência das suas práticas amorosas, Madame Bovary mudara de modos. O seu olhar tornou-se mais atrevido e a sua conversação mais livre e, inclusive, cometeu a inconveniência de passear-se pelas ruas de braço dado com Rodolfo, e de cigarrilha na boca, como que a desafiar o mundo.


(...)


 « Não te esquecerei nunca, acredita. Sempre sentirei por ti um carinho profundo, mas, um dia qualquer, mais tarde ou mais cedo, este imenso carinho - tal é o destino das coisas humanas - sem dúvida diminuirá. O cansaço apodera-se de nós e, quem sabe, se não iria eu ter a terrível dor de presenciar os teus lamentos e de comparti-los por tê-los causado? Culpa tão somente a fatalidade.»

- Esta palavra sempre produz efeito - disse para si mesmo.
Releu a carta e pareceu-lhe excelente. 
- "Pobrezinha", vai pensar que sou mais insensível que uma roca. Umas lagrimitas em cima da carta produziriam um efeito magnífico. Mas eu não posso chorar, a culpa não é minha!
Então, enchendo um copo de água, molhou nele o dedo e deixou cair uma grossa gota, que esboçou sobre a tinta uma pálida mancha. Acostou-se e fumou três cachimbos antes de se ir deitar.


Isabelle Huppert como Emma Bovary e Cristophe Malavoy como Rodolfo
em Madame Bovary (1991), de Claude Chabrol

Madame Bovary # 2



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 ( Passagem )

Emma, de frente para ele, olhava-o. Não partilhava da sua humilhação; sofria uma outra distinta.  A de ter pensado que aquele homem poderia alguma vez servir para alguma coisa, quando em mais de vinte ocasiões poderia simplesmente ter-se limitado a comprovar a sua mediocridade.
Carlos passeava-se pelo quarto e as suas botas rangiam sobre o soalho.
- Senta-te! - disse-lhe ela - Incomodas-me!
Carlos sentou-se.
Como era possível que ela, tão inteligente, se pudesse ter enganado mais uma vez? Por que deplorável capricho tinha afundado daquele modo a sua existência em contínuos sacrifícios? Recordou os seus instintos de luxo, as privações da sua alma, as misérias do matrimónio, do lar, os seus sonhos caídos no lodo como andorinhas feridas. E, por quê? Porquê?
Tinha sido por ele, por aquela criatura, por aquele homem que não compreendia nada, que não sentia nada, que estava ali tranquilamente, sem suspeitar sequer do ridículo que acabara de cair sobre o seu nome. Tinha tratado de o amar e, inclusive, tinha chorado, arrependida de ter-se entregue a outro!
Emma mordia os lábios enquanto brincava nervosamente com um pequeno pedaço de lenha que acabra de arrancar. Cravava em Carlos as pupilas, como duas flechas de fogo próximas de disparar. Tudo nele a irritava: a cara, a forma de vestir, o que não dizia, toda a sua pessoa, a sua existência. Arrependia-se, como de um crime, da sua virtude passada, e, o que ainda restava dela, desvanecia-se ante furiosos golpes de orgulho. Deleitavam-na todas as perversas ironias  do adultério triunfante, a recordação do seu amante regressava a ela outra vez como atracções de vertigem, às quais lançava a sua alma, arrastada até aquela imagem por um novo desejo. Carlos parecia-lhe tão alheio à sua vida, tão ausente, tão aniquilado e impossível, como se fosse morrer e estivesse ali a agonizar diante dos seus olhos.
Então Carlos, num arrebatamento de súbita ternura e desalento, voltou-se para a sua mulher:
- Abraça-me!
- Deixa-me! - volveu ela, encarnada de fúria.
- O que é que tens? Que se passa? - dizia o pobre homem estupefacto - Acalma-te, acalma-te! Sabes bem o quanto te quero... chega-te aqui.
- Basta! - disse Emma num tom terrível.
E, fugindo da sala, fechou com tal violência a porta que o barómetro se desprendeu da parede fazendo-se em mais de mil pedaços no  chão. Carlos deixou-se cair sobre o cadeirão, desconcertado, pensado nos motivos daquela conduta, atribuindo-a a uma enfermidade nervosa, chorando e sentindo vagamente ao seu redor algo funesto e incompreensível. 
Quando, à noite, Rodolfo chegou ao jardim, encontrou a sua amante aguardando-o junto da escadaria, sentada no primeiro degrau. Abraçaram-se e todos os seus rancores se fundiram, como a neve, com o calor daquele beijo.
In Madame Bovary
de Gustave Flaubert

 Still de Madame Bovary (1991), de C. Chabrol

Madame Bovary # 1



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 ( Passagem )

Emma permaneceu por momentos com aquele longo papel nas mãos. As faltas de ortografia sucediam-se uma após outra e Emma perseguiu o carinhoso e doce pensamento da carta, como se persegue uma galinha por entre os matagais. A tinta tinha sido seca com a cinza da chaminé, pois caiu sobre o vestido um pouco de pó cinzento. Quase acreditava ver o seu pai, debruçado sobre a lareira para pegar nas tenazes. Há quanto tempo não se sentava na arca, ao seu lado, ante o fogo, enquanto ardia um troço de lenha na chama dos juncos marinhos que crepitavam!
Recordou as soalheiras tardes de verão; os potros, que ao passar junto dela relinchavam, galopando. Sob a sua janela havia uma colmeia e ás vezes as abelhas, girando na luz, chocavam nos vidros e ricocheteavam como balas de ouro. Que felicidade a de então! Que liberdade! Quantas esperanças! Quantas ilusões! Agora tudo tinha desaparecido. Tudo se tinha consumido nas múltiplas aventuras do seu espírtio, nas sucessivas etapas da sua vida, na virgindade, no amor... Tudo se foi perdendo, constantemente, ao largo da vida, como o viajante que vai deixando parte da sua riqueza pelas hospedarias do caminho.
Mas, quem a fazia tão infeliz? Onde se escondia a extraordinária catástrofe que a transtornava? E levantou a cabeça, olhando ao seu redor como que à procura da causa para o seu sofrimento. Um raio de sol de Abril cintilava nas porcelanas do armário da sala. A lenha ardia na lareira e abaixo das suas chinelas sentia a brandura da carpete. O dia estava claro, a atmosfera tíbia e ouvia, ao longe, a filha a rir estridentemente (...).
in Madame Bovary,
de Gustave Flaubert



Still de Madame Bovary (1991), de C. Chabrol

Bem, como eu estava a dizer.



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António Lobo Antunes na mais recente apresentação do mais recente livro.

De Superficies.



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O que me preocupa verdadeiramente n e s t a s entrevistas que Mário Crespo insiste em fazer, anualmente ou quase, a António Lobo Antunes nem é bem o ar altamente baboso do entrevistador ao ler passagens (e, diga-se de passagem, durante toda a restante entrevista), nem sequer a ronha ronha palavreada do costume do entrevistado, de ano para ano, mais crente da divindade da sua escrita (não sou eu, é um anjo), ou tampouco a nimiedade - a um triz da osbscenidade - de palmadinhas recíprocas nas costas de um, nas costas do outro; é mesmo tentar perceber se aquelas camisolas de malha e camisas azul-bebé são, ou não, as mesmas todos os anos.

Lamento e exortação.



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Que chegámos demasiado tarde ao leito
da vida para qualquer sonho de emancipação
revolucionária, percebemo-lo aos vinte anos;
que justiça é uma palavra em esperanto
e a lei o mero eixo onde gira o privilégio,
percebemo-lo depois, muito a contragosto.

Resta-nos perder a última ilusão: a de que
haja ainda espaço, nesta feira popular
da mediocracia, para uma escrita que não
seja celebração do estúpido, estridente
Carrossel do embuste, da Grande Roda
que nos entontece de riso (em voltinhas
de onde a alma sai torcida e sem emprego),
do Túnel de Horrores Publicitários, da Barraca
de Tiro em que fazemos de patos; espaço,
enfim, para que dois dedos de beleza se
entrelacem, ou dois dedais de inteligência
se toquem num brinde ao farrapo da verdade.

Quando percebermos também isto, amigos,
saberemos que a Gloriosa Era da Literatura
Ocidental chegou ao fim, derretida (como
aliás sugere o seu acrónimo) pelo aquecimento
da emoção global; que não viemos aqui
para tentar ressuscitar um moribundo
(como crêem os mais optimistas), mas sim
para animar um velório. Carpideiras somos,
de violino ao ombro. O funeral está na rua.
Se queremos brilhar ainda um pouco,
é agora ou nunca. Afinemos as cordas,
as lágrimas, em dó maior. Vamos a isto?
 José Miguel Silva
 

Lector Mal-Herido.



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Hoje, a propósito desta notícia do El País:

" El villano de las

letras españolas "

apresento-vos o blog de Literatura mais badalado de Espanha:
WWW.LECTOR-MALHERIDO.BLOGSPOT.COM

Para perceberem do que trata e, sobretudo, como trata, o melhor mesmo é começar por lerem a notícia.
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OS VOYEURS.