Os anos.



0 COMENTÁRIO(S)
Fosse por mim e deixaria morrer à fome os anos.
A contabilidade excessiva do corpo que, ao habituar-se aos meses, se vai deixando ficar para trás do futuro.
A repartição dos tempos facturando as dívidas passadas: o dever do vivo é ter as contas fechadas com o que lhe coube de mortalidade no mundo.
Penhoram-se pessoas, palavras pensadas, leiloadas em caixões prestes a fechar, – quem dá mais do que uma flor? – Liquidado à terra por duas ou três coroas de defunto, ao corpo resta-lhe ainda esperar o fecho do tempo que, como qualquer outro serviço público, só fecha portas à saída do último utente.
Penso no absurdo de toda a parafernália, enquanto me sento mais uma vez junto a uma coroa; é o futuro, quando a lápide colocada de fresco servir apenas para calcetar mais uma secção do cemitério.
Uma herança de ossos, que se sobe sobre a morte de outros para se saber o quanto de imortalidade nos sobrará da morte. Como eu soube ao descer por mortes centenárias, buscando-lhes raízes em montes silvados para descobrir que tenho guardada a outra parte da alma num lado avesso às ondas do mar.

Fosse por mim e morreriam à fome os anos: cães magros arrastando as ruas com o seu latido de abandono, amarrando-as aos meus pés para que lhes sinta o peso em cada passo, e eu, que me farto das cidades nos calcanhares, levando-as comigo sem as olhar, sem as alimentar, que mortas de abandono talvez me larguem as ruas, os tempos e os anos, que nunca terão futuro suficiente para me pagarem as horas de que lhes sou credora.

Beatriz Hierro Lopes

Meu amor, a casa está tão sozinha que os pássaros vêm morrer lá dentro.



0 COMENTÁRIO(S)
Meu amor,
a casa está tão sozinha que
os pássaros vêm morrer lá dentro.
Nada mudou, mas falta
a mão para acariciar o gato
e acolher a ninhada secreta,
o sorriso que enchia o tanque
e fazia crescer a horta.

Já ninguém apanha as laranjas mais altas
ou usa a sombra da nogueira.
E até os ciprestes se tornaram redundantes
ao ponto de os abatermos:
a ausência diz-se melhor no esplendor
inútil das rosas sem esse olhar,
nas papoilas raras que duram
o tempo de uma fotografia.

Um dia, deixaremos também uma casa assim,
casulo abandonado a sobreviver-nos.
Um de nós escutará as asas ansiosas
na chaminé, antes de pousar o livro
e amparar o último pássaro.
Só parecerá menos triste
porque não teremos, então,
nada mais a perder.

Inês Dias
Resumo, a poesia em 2011
2012

Domingo hoje.



0 COMENTÁRIO(S)

É domingo hoje
mas nós não saímos

é o único dia
que não repetimos

e que dura menos

Mas põe o teu rouge
que eu mudo a camisa

Tomaremos chá
leremos um pouco

e iremos à varanda
absortos

António Reis
in Novos Poemas Quotidianos

Lobos #2



0 COMENTÁRIO(S)
Amo os lobos, porque amo os temperamentos fortes e rectos que preferem a violência à manha.
Os temperamentos poderosos e ricos são um terreno privilegiado para a santidade e a delicadeza de um ser forte é ao mesmo tempo mais virtuosa e mais subtil que a de um fraco.
Quando se é naturalmente tentado a dominar os outros, mais belo é então o domínio de si próprio.
- Raymond Léopold Bruckberger

Lobos #1



0 COMENTÁRIO(S)
As pessoas da vila não gostavam de mim,
porque eu dizia sempre o que pensava
e também porque atingia abertamente, com protestos,
aqueles que me atacavam, sem ocultar a mágoa
ou alimentar o rancor.
Louva-se muito o acto desse rapaz espartano
que escondeu sob a sua túnica um lobo,
deixando, sem um único lamento, que este o devorasse.
Eu penso que há mais valentia em agarrar o lobo
e combate-lo abertamente, mesmo em plena rua,
por entre a poeira levantada e os uivos de dor.
A língua pode ser desordeira,
mas o silêncio envenena a alma.
Quem quiser, que me censure ─ eu estou satisfeito.


Edgar Lee Masters
Spoon River
Relógio d´Água
2003
newer post older post

OS VOYEURS.