ERA UMA VEZ, OU TRÊS, OU CINCO.



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A BELA ACORDADA 

Era uma vez uma mulher que tão depressa era feia era bonita, as pessoas diziam-lhe:
- Eu amo-te.
E iam com ela para a cama e para a mesa.
Quando era feia, as mesmas pessoas diziam-lhe:
- Não gosto de ti.
E atiravam-lhe com caroços de azeitona à cabeça.
A mulher pediu a Deus:
- Faz-me bonita ou feia de uma vez por todas e para
sempre.
Então Deus fê-la feia.
A mulher chorou muito porque estava sempre a apanhar
com caroços de azeitona e a ouvir coisas feias. Só os animais
gostavam sempre dela, tanto quando era bonita como quando
era feia como agora que era sempre feia. Mas o amor dos animais
não lhe chegava. Por isso deitou-se a um poço. No poço,
estava um peixe que comeu a mulher de um trago só, sem a
mastigar.
Logo a seguir, passou pelo poço o criado do rei, que
pescou o peixe.
Na cozinha do palácio, as criadas, a arranjarem o peixe,
descobriram a mulher dentro do peixe. Como o peixe comeu a
mulher mal a mulher se matou e o criado pescou o peixe mal o
peixe comeu a mulher e as criadas abriram o peixe mal o peixe
foi pescado pelo criado, a mulher não morreu e o peixe
morreu.
As criadas e o rei eram muito bonitos. E a mulher ali era
tão feia que não era feia. Por isso, quando as criadas foram
chamar o rei e o rei entrou na cozinha e viu a mulher, o rei
apaixonou-se pela mulher.
- Será uma sereia ? – perguntaram em coro as criadas ao
rei.
- Não, não é uma sereia porque tem duas pernas, muito
tortas, uma mais curta do que a outra – respondeu o rei às
criadas.
E o rei convidou a mulher para jantar.
Ao jantar, o rei e a mulher comeram o peixe. O rei disse à
mulher quando as criadas se foram embora:
- Eu amo-te.
Quando o rei disse isto, sorriu à mulher e atirou-lhe com
uma azeitona inteira à cabeça. A mulher apanhou a azeitona e
comeu-a. Mas, antes de comer a azeitona, a mulher disse ao rei:
- Eu amo-te.
Depois comeu a azeitona. E casaram-se logo a seguir no
tapete de Arraiolos da casa de jantar.
 
 
Adília Lopes

EU SOU A CABRA.



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Eu sou a cabra que tu vês à esquina logo de manhã quando caminhas com o cabaz das compras e a criada atrás
Fui eu quem assaltou hoje a mercearia do sr. José, coitado, mesmo à tua porta, e que causou um alvoroço enorme
Eu arrastei a tua catraia tão sossegadinha à força para dentro duma escada e, acredita, nunca pensei que uma miúda já soubesse tanto
E passo acima-abaixo na tua rua rente à janela do teu lar à procura dum homem, tu és dos que chamam palavrões a este cio homoxessual e escondes a cara nas cortinas
Eu sou dos que perde os dias no café sem fazer nada, essa canalha
Deito-me com mulheres de qualquer idade e até faço amor com a tua filha
Tenho vícios astrais, a minha boca conhece a do anjo de Filadélfia
Visto-me de mulher, visto-me de homem, quando calha até me visto de coisa sonsa e hipócrita
Durante a noite ando aos caixotes, mergulho o nariz na náusea dos edifícios
E partilho das gamelas dos freaks desta cidade
Não me chateies mais com os teus problemas transcendentes



Paulo da Costa Domingos.

MATEMÁTICA DA CONSTATAÇÃO.



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A quantidade de comentários de que as caixas de blogues são contentoras é directamente inversa à qualidade dos conteúdos. { X, Y , Z = Dar chutos em bola sem ar. }

BICHOS INSTANTÂNEOS.



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És um bicho tão pobre como eu, um bicho com uma expressão enigmática, e por isso és um bicho igual a mim, sem que nenhum de nós tenha um terceiro para estabelecer uma relação de semelhança. Dizes-me: não posso olhar para trás e ver-te à minha frente. Somos estrangeiros numa penúria extrema como um mendigo que espera por uma terrina de sopa na porta de uma casa abandonada. Um bicho inclui os homens no mesmo círculo de convivência com os astros e as pedras. Ávido de entender a anunciação de uma matéria que não opere a destruição atómica, a olhar cada um desesperadamente para fora de si, um bicho que está fora do tempo vê o intemporal e também isso o faz infeliz. Um bicho está sempre a ser outro, tu interpões-te entre metade dos meus eus e deixas a outra metade de fora e depois queres fazer irromper-te do teu embaraço de bicho e és um relâmpago furioso, tremes e desenhas, sim, é verdade que te leio como a minha verdade secreta, mas nunca te posso dizer eu. O delírio de um bicho é incompleto e passageiro e por isso o que vejo de ti é um pressentimento do que tu és.
Isabel Aguiar Barcelos
Bichos Instantâneos
Poemas de António Ramos Rosa e Isabel Aguiar Barcelos
Edições Quasi

"MOSTRA-ME A TUA GALERIA."



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Fotos de Älison Scarpulla 
FLICKR
MYSPACE

GOSTO. ÀS VEZES.



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Sob pressão não consigomas descobri
O Melhor Blog Do Universo.

BARBA RIJA*.



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* OU Joaquin Phoenix @ David Letterman.

ESTAS MERECEM O POST #500.



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Série 
BODY OF EVIDENCE, 2001
de GEOFF CORDNER

O QUE JÁ SABÍAMOS.



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Sex, Lies And... Photoshop. Para ver aqui.

SEM TÍTULO.



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" ATÉ OS CÃEZINHOS GOSTAM "



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Nova Campanha Publicitária
Durex 
Pela Agência Nova-Iorquina Superfad 
[ Via SOUND + VISON ]

Não me importa nada.



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Não me importa nada que as mulheres tenham seios como magnólias ou como figos secos; uma pele de pêssego ou de lixa.
Não dou nenhuma importância, ao facto de que amanheçam com um hálito afrodisíaco ou com um hálito insecticida. Sou perfeitamente capaz de suportar um nariz que ganharia o primeiro prémio numa exposição de cenouras; mas isso sim--e nisso sou irredutível—não lhes perdoo, sob nenhum pretexto, que não saibam voar. Se não sabem voar perdem o tempo as que pretendem seduzir-me!

Esta foi – e não outra, a razão porque me apaixonei tão loucamente por Maria Luísa.

Que me importavam os seus lábios entalhados e os seus ciúmes sulfurosos? Que me importavam as suas extremidades de palmípede e os seus olhares de prognostico reservado ?

Maria Luísa era uma verdadeira Pluma!

Desde o amanhecer voava do quarto até à cozinha, voava da sala de jantar à dispensa. Voando me preparava o banho, a camisa. Voando fazia as compras, as suas canseiras…

Com que impaciência eu esperava que voltasse, voando de algum passeio pelos arredores! Ali longe, perdido entre as nuvens, um pequeno ponto rosado. "Maria Luísa! Maria Luísa!"... e em poucos segundos, já me abraçava com as suas pernas de pluma, para levar-me voando a qualquer parte.

Durante quilómetros de silêncio planeávamos uma carícia que nos aproximava do paraíso; durante horas inteiras aninhávamo-nos numa nuvem, como os anjos, e de repente, em saca-rolhas, em folha morta, a aterragem forçada de um espasmo.

Que delícia a de ter uma mulher tão leve…, ainda que nos faça ver, de vez em quando as estrelas! Que voluptuosidade a de passarem-se os dias entre as nuvens… a de passar-se as noites de um só voo!

Depois de conhecer uma etérea, pode-nos brindar com alguma classe de atractivos uma mulher terrestre? É verdade que não há diferença substancial entre viver com uma vaca ou com uma mulher que tenha as nádegas a setenta e oito centímetros do solo?

Eu, pelo menos, sou incapaz de compreender a sedução de uma mulher pedestre, e por mais empenho que ponha em concebê-lo, não me é possível nem tão pouco imaginar que possa fazer-se amor a não ser voando.

Oliverio Girondo
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OS VOYEURS.