More Die Of Heartbreak
Morrem mais de mágoa do que por radiações nucleares,
mas cá nos entretemos nós com activismos piolhosos,
enquanto isso, em muitos lares, escrever nos vidros
continua a ser a única separação entre a vida e a morte,
carta que salva uma mão de ferir outra ou de se perder
neste mal-estar perante as luzes ou uma fotografia antiga.
António Ramos Pereira
(excerto)
Inventarei o dia onde contigo
e o Outono corra pelas ruas.
A luz que pisamos é tão perfeita
que não pode morrer, como não morre
o brilho do olhar que te viu despir.
Eugénio de Andrade
" Poesia ", 2000
e o Outono corra pelas ruas.
A luz que pisamos é tão perfeita
que não pode morrer, como não morre
o brilho do olhar que te viu despir.
Eugénio de Andrade
" Poesia ", 2000
O meu riso vai alto,
Mais alto que os chapéus dos cardeais
Mais alto que a esperança
Os meus seios riem quando o sol brilha,
Apesar dos meus fatos apesar do meu noivo.
Feia que sou, sou feliz.
Deus e os vampiros
Amam-me.
Joyce Mansour
Trad. Mário Cesariny
Rosa do Mundo : 2001 Poemas Para o Futuro
Assírio & Alvim, 2001
Mais alto que os chapéus dos cardeais
Mais alto que a esperança
Os meus seios riem quando o sol brilha,
Apesar dos meus fatos apesar do meu noivo.
Feia que sou, sou feliz.
Deus e os vampiros
Amam-me.
Joyce Mansour
Trad. Mário Cesariny
Rosa do Mundo : 2001 Poemas Para o Futuro
Assírio & Alvim, 2001
A tal assembleia popular dos indignados fez-me lembrar uma amiga da minha irmã que vive numa comunidade hippie perto do Cercal do Alentejo. Durante a adolescência, não era diferente de nós, sentia-se de esquerda, era de esquerda. Era a esquerda que cuidava dos jovens, dos pobres, dos excluídos, das minorias. Uma pessoa tinha de ser de esquerda porque a defesa de um núcleo de direitos e valores parecia pertencer em exclusivo à esquerda. Depois, numa altura em que toda a gente, uns mais, outros menos, guinou à direita, - uma pessoa arranja um emprego, casa, tem filhos, que diabo, é a vida que nos torna mais conservadores, - a amiga da minha irmã não guinou nem à esquerda, nem à direita. Pura e simplesmente, saiu do caminho. Largou o emprego, pegou nas saias compridas e nas alpercatas, e foi viver para a tal comunidade hippie: é naturista, anarquista, ecológica, é pelo poli amor, tem horror a antibióticos e não vacina o filho. Até aí nada de mal. Cada um vive como quer e se há mulheres que acham que podem viver sem pensos higiénicos, empapando o fluxo menstrual em paninhos de algodão, isso é lá com elas. O problema é que a tal amiga da minha irmã e o namorado, um hippie alemão, chamado Rainbow, viviam de um subsídio de juventude que o exemplar estado alemão atribuía ao dito. Ou seja, a indignação e rebeldia do casal, não era sustentada pelos próprios, que passavam o dia em contemplações espúrias, era, isso sim, suportada pelo sistema que tanto desprezavam. Ao que parece, a amiga da minha irmã agora dá aulas aos velhinhos das aldeias do Cercal do Alentejo (desconheço que competências tem para fazê-lo) e é paga pela autarquia local que quer os seus seniores – é como agora chamam aos velhos – ocupados.
Nos dias que correm todos sentimos indignação, mas, a mim, aborrece-me que a minha indignação possa ser confundida com a indignação da amiga da minha irmã e de todos aqueles que, como ela, criticam o sistema, mas o que mais desejam é viver amparados por ele. Chateia-me que a minha indignação e a de muitos outros, por dispensar o folclore próprio da esquerda extremista, dos cartazes mal escritos, dos urros gratuitos ditos por mulheres mal depiladas, pouco valha e que a indignação da geração à rasca, dos indignados, dos acampados, mereça tanto aconchego.
Ana de Amsterdam,
a grande.
Que se faz na hora de morrer? Volta-se
a cara contra a parede?
Agarra-se pelos ombros o que está perto e ouve?
Deita-se cada um a correr, como o que tem
as roupas incendiadas, para chegar ao fim?
Qual é o rito desta cerimónia?
Quem vela a agonia? Quem puxa o lençol?
Quem afasta o espelho por embaciar?
Porque a esta hora não há mãe nem parentes.
Já não há soluço. Nada, mais que um silêncio atroz.
Todos são uma face atenta, incrédula
De homem da outra margem.
Porque o que sucede não é verdade.
Rosario Castellanos
Rosa do Mundo - 2001 Poemas Para O Futuro
Assírio & Alvim
a cara contra a parede?
Agarra-se pelos ombros o que está perto e ouve?
Deita-se cada um a correr, como o que tem
as roupas incendiadas, para chegar ao fim?
Qual é o rito desta cerimónia?
Quem vela a agonia? Quem puxa o lençol?
Quem afasta o espelho por embaciar?
Porque a esta hora não há mãe nem parentes.
Já não há soluço. Nada, mais que um silêncio atroz.
Todos são uma face atenta, incrédula
De homem da outra margem.
Porque o que sucede não é verdade.
Rosario Castellanos
Rosa do Mundo - 2001 Poemas Para O Futuro
Assírio & Alvim
2001
(poemas de todos os tempos,
de todos os espaços
e de todos os lugares.)
I know a ghost can walk through the walls
Yet I am just a man, still learning how to fall ...
I am what I am
And what I am is who I am
I know what I know
And all I know is that I fell
If only I could walk through the walls
Then maybe I would tell you who I was
Yet I am just a man still learning how to fall
Yet I am just a man still learning how to fall...
E, enorme, nesta massa irregular
De prédios sepulcrais, com dimensões de montes,
A Dor humana busca os amplos horizontes,
E tem marés de fel como um sinistro mar!
Lunchtime Atop a Skyscraper, 1932, Charles C. Ebbets
De prédios sepulcrais, com dimensões de montes,
A Dor humana busca os amplos horizontes,
E tem marés de fel como um sinistro mar!
do poema "Horas Mortas"
Cesário Verde
Lunchtime Atop a Skyscraper, 1932, Charles C. Ebbets
O osso da pila*
para o eduardo pires
pensávamos que se partíssemos o
osso da pila morríamos num instante sem
mais crescer, sem casar
pensávamos que o osso da pila era
o mais impressionante e que talvez fosse
articulado e que seria fundamental para crescer e para casar
pensávamos que faríamos filhos à
custa do osso da pila e que não os faríamos se
o partíssemos nem cresceríamos e nem poderíamos casar
pensávamos que casaríamos um dia, aterrorizados por
uma infância ansiosa, com as mãos no osso da pila para
o proteger, razão também pela qual achávamos ter podido
crescer e casar
pensávamos que o osso da pila justificava crescer e casar
não casámos, não partimos o osso da pila, crescemos,
devíamos ter morrido na infância, num instante
Valter Hugo Mãe
o inimigo cá dentro
Volume contabilidade, Poesia 1996-2010
Alfaguara, 2010
Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer
Cesário Verde
Em caso de fogo, a primeira coisa que se deve fazer é perder a cabeça. O pior inimigo do fogo é a cabeça. Começa-se por querer sair dali a qualquer preço, não olhar a nada, esquecer tudo, desaparecer, mesmo que seja para o interior de si próprio, onde por sinal há muito mais fogos do que no litoral.
Cento e trinta e cinco por cento das vítimas do fogo são homens. O restante são mulheres e crianças e nenhuma delas abandonou a cabeça. Embora nenhuma vítima tenha sequer tido tempo para pensar que poderia estar noutro local, como no interior ou no litoral de si próprio, todas foram encontradas agarradas às coisas mais incontroláveis, como uma beata, uma bóia ou uma recordação.
António Pocinho
Os pés frios dentro da cabeça
Fenda, 1999
Hoje vou para o mercado velho expor o meu corpo em pedaços
cada um bem identificado por uma etiqueta com nome e valor
tenho esperança de realizar uma boa transacção há tanta coisa lá
para trocar pelos pedaços ainda em bom estado deste meu corpo
inteiro não tem muita utilidade mas assim a retalho é precioso
em particular a mão direita o crânio o sexo o coração
oxalá ninguém queira comprar por atacado todos os pedaços
é que não sei onde guardei as instruções de montagem.
Carlos Alberto Machado
Talismã
Assírio & Alvim, Lisboa, 2004
cada um bem identificado por uma etiqueta com nome e valor
tenho esperança de realizar uma boa transacção há tanta coisa lá
para trocar pelos pedaços ainda em bom estado deste meu corpo
inteiro não tem muita utilidade mas assim a retalho é precioso
em particular a mão direita o crânio o sexo o coração
oxalá ninguém queira comprar por atacado todos os pedaços
é que não sei onde guardei as instruções de montagem.
Carlos Alberto Machado
Talismã
Assírio & Alvim, Lisboa, 2004
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